domingo, 30 de junho de 2019

Querida Anita.

Depois de sua última carta, ergueu-se em mim um coro de lembranças decepadas e desassistidas clamando por um lugar em que pudessem estar, ao menos, próximas umas das outras, talvez desordenadamente amontoadas, mas agregadas pelo calor de uma vida em suspenso. E não pude deixar de pensar no famoso texto de Pirandello em que adentram na realidade da sala de teatro seis personagens que buscam ardorosamente um autor que conte sua história. Assim, vieram-me as lembranças, em busca de alguém que as rememorasse, como se fossem todas as partes de um herói, disjuntado ao longo da estrada, em tantos sentidos real, exigindo com tranquilidade a oportunidade de repousarem num lugar, em tantos sentidos, imaginário e possível.

Ainda não sei se esta carta é o bastante para fazer ver que essas lembranças evaporadas estão arquivadas numa nuvem de onde choverão ao apelo de uma dança xamânica, executada por um missivista qualquer.

Lembrei, então, da vez em que ele me disse que éramos seminamorados. Irascível, calei-me. Não foi muito difícil para ele ouvir meu silêncio. Sei que você pode imaginar o que senti, e quantas vezes isso floresceu entre nós.

Deitado no divã, esbravejei com meu psicanalista: medo, desrespeito, cansaço, impaciência, desejo. Ondas de afetos arrebentavam nas areias silenciosas e insensíveis do meu psicanalista. Era assim que eu sentia. Estava arrasado. Então, quase como por diversão, ele começou a falar. Perguntou-me quem era o seminamorado da relação; quem estava por inteiro e onde; o que era ser inteiro; qual o significado de seminu, semiárido, semivivo, semimorto, semi-analfabeto, semifinal. Inicialmente, a contragosto, percebi como era enganoso me colocar como aquele que estava inteiro na relação enquanto o outro era aquele que só se entregava pela metade, só estava pela metade. Eu, corajosamente inteiro; ele, covardemente metade, semi-. E lembrei das partes cravadas ao longo da estrada real. Um corpo de ideias, covardemente disjuntado, resultado de sua insistência num mundo em que mais gentes pudessem se sentir gente. Estar em partes não era o que eu corriqueiramente entendia. Um semi-analfabeto pode ser um adulto ciente de seus limites, satisfeito por seus grandes feitos, a caminho de um lugar em que não necessariamente estará para sempre alfabetizado.

Ser um seminamorado podia significar a possibilidade de encontrar pela estrada outro seminamorado, em tantos sentidos real, e caminharmos lado a lado, vendo faltas, excessos, ímpetos, medos, silêncios, horizontes; percebendo os desejos de desver, de desler e de desdizer; e sabendo que em partes somos e em partes não somos. Não haverá soma final antes de estarmos ao lado de quem amamos, nem durante ou depois.

Ao fim da sessão, ergui-me determinado: telefonaria e iria chamá-lo de seminamorado. Meu psicanalista não se moveu nem se levantou da cadeira. Disse, antes que eu atravessasse a soleira da porta, “não esteja inteiramente em partes”.

No fim da tarde, enquanto eu lavava a louça de um lanche qualquer, ele, meu seminamorado, aproximou-se e mostrou-me na voz de outra pessoa, um texto conhecido como “Quando o amor vacila”. Ouvi tudo de costas. Voltei-me. Olhei-o. Era e não era uma declaração de amor. Diante de mim, um seminamorado, de amor vacilante como a luz de um vagalume, fitava-me.

Anita, em matérias de amor sou semi-analfabeto e tenho dificuldades para lidar com os semitons. Meu temperamento semibárbaro afugenta todo aquele que de mim se aproxima.

Sei de que momento esta carta fala e sei que em parte guardo as lembranças preciosas de um passado que parece que foi ontem ou anteontem. Condenso-me nestas palavras. Chovo.

Daquele que ama,

Caio Marques.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Querida Anita.

Escrevo-te rapidamente para que me dês tua opinião.

Crês que podemos agraciar alguém com uma palavra?

Ontem foi o dia de Santo Antônio. Anteontem foi o dia dos namorados. Pensei em você. Creio que depois de tantos anos você não me incriminará por dizer isso. Ontem foi o dia de Santo Antônio. Anteontem foi o dia dos namorados. Pensei em você. Já encontrei um guarda-chuva num poema. Já tive uma palavra atravessada na garganta. Já choveu na palavra terra. Já perdi tantas agulhas no palheiro das minhas cartas. Já beijei a palavra você.

Mas anteontem, no jantar, ela me estendeu a mão e me agraciou com uma de suas palavras escritas. Não havia entrelinhas, não havia mapas. Como ler uma única palavra? Não havia frase, não havia parágrafo, não havia nem mesmo tom. Era uma única palavra escrita numa caligrafia que nem era a dela. Tirei os sapatos e comecei a caminhar pelo chão frio de pedra. Absorto pus-me a pensar na palavra solta. E me perguntei se ela estava mesmo solta, se era livre, na solidão da página branca. Estaria essa palavra mais livre do que qualquer palavra presa em minhas cartas? Seriam minhas cartas espécie de cárcere para cada palavra? Ou será que cada palavra só poderia estar livre, solta, na medida em que participasse de uma carta? E aquela palavra, na folha de papel branco, pertencia a algum texto? Será que eu estava querendo forçar aquela palavra a pertencer a algum texto? Ou era eu que não conseguia perceber a que texto, desde sua origem, ela já pertencia? Quando dei por mim, havia voltado para sua companhia. Calcei os sapatos. Deixamos o restaurante felizes e caminhamos pelas ruas desertas da cidade barroca. Depois de acompanhá-la até sua casa, regressei e aconcheguei-me debaixo de minhas cobertas.

Lembrei, então, que o dia terminara sem que ele me tivesse dirigido uma só palavra. Silêncio. Lembrei-me de você: “sou analfabeta em matéria de silêncios”. Estava só. Você jamais poderia me ajudar a compreender esse silêncio. Levantei-me, agasalhei-me o máximo que pude, e caminhei na madrugada fria, calçado, pelo bairro deserto. Por que ele compartilhara o silêncio? Como ler o silêncio? Qual a sua gramática? Talvez, no dia seguinte, ele abrisse as comportas da sua voz e me inundasse de palavras, mas eu estava aflito. Não sabia manusear seu silêncio. Seria esse silêncio uma pausa? O oposto da palavra? Um silêncio que não era palavra nem deixava de ser. Deixava ser. Deixava que eu fosse. Deixava? Ou me guardava dentro de si? Ou me deixava de fora? Fora do mundo dele, fora dos seus pensamentos, dos seus afetos? Ou me obrigava a ser uma palavra, diante de seu vazio? Quando dei por mim, estava de novo debaixo de minhas cobertas. E lembrei-me de novo de sua última carta: “silêncio é terreno fértil. Em se plantando tudo dá”.

Sim, você tem razão. Levantei-me, escrevi uma carta e plantei-a bem ali, no silêncio compartilhado por ele, à luz da lua crescente. Quanto à palavra com que fui agraciado, pendurei-a bem aqui, no texto desta carta, e, como um metrônomo, marca o andamento dos nossos silêncios, que caminham a esmo entre as palavras, conduzindo-as a todo sentido que escapa e por isso sobrevive.

Assim como você, não sou comedido. Talvez blasé. Ou cheio de empáfia. Arrogante mesmo. Perdoe-me se me estendi. Se a resposta à primeira pergunta que te fiz for afirmativa, ofereço-te entrega. Se for negativa, despeço-me.

Aquele que ainda ama,
Caio Marques

domingo, 9 de junho de 2019




Querida Anita.

Hoje está menos gelado. A brisa agradável e fria da manhã movimenta o dia. Ao longe latem os cachorros. Hoje não deve ser dia santo, os sinos não tocaram. O trem, há muito, apitou e deve ter deixado a estação. Fim de outono. Às vezes me vem você à lembrança. Frequentemente, confesso. A contragosto aprendi que cada um teima em sua sabedoria. Teimo agora na minha. Pela manhã, quando eventualmente preparo café, agradeço aos pretos velhos e às pretas velhas e peço sabedoria. Luz não. Sabedoria. Teimo. Persisto.

Num recanto de quem eu teimo ser, estou sentado a fazer planos e cálculos. Minha mesa, rodeada de livros, papéis, pastas e caixas, é o centro do futuro. Ali; ali está o centro do futuro. Basta, contudo, dirigir-me a outro recanto para perceber que o tempo não se reduz ao verão que virá, ou ao outono que finda. O tempo não se reduz. E pergunto-me se apenas eu fico ali sentado a fazer planos e cálculos.

Há alguém, bem à beira da janela, vestida de flores, desenhando paisagens. E se ela reparasse que cada paisagem também guarda sua vontade de esquadrinhar o mundo? Talvez percebesse que quem está sentada à beira da janela conversa com quem está rodeado de papéis.

Há também, um pouco mais afastado, um homem, de pé, de costas para uma parede cheia de equações e de rotas. Ao alcance da sua mão um mundo mágico, momentâneo e prazeroso, farto de presente. E se ele percebesse que a fartura do agora guarda o medo da fome de amanhã?

Eu, Caio Marques, queria ouvir a mulher e suas paisagens, o homem e sua fartura mágica, a criança amedrontada, a velha cheia de esperança, o adulto prepotente, o coveiro filósofo, a cozinheira fumando seu cigarro, o varredor que olha o córrego. E talvez tenha ouvido. Espero ter ouvido.

O apito do trem! De volta à estação. Quem tinha de ir foi e quem tinha de voltar voltou. E há quem quisesse ter ido, quem quisesse ter voltado. E não o fez. Tanta gente. E não há cálculo ou paisagem que nos permita chegar à derradeira estação. Nem esta carta. Talvez ela tenha permitido que alguém embarque. Ou desembarque!

Anita, se não for muito, peço que guarde esta carta. Quem sabe um dia, antes de embarcar - ou de desembarcar - , alguém a encontre e leia. E decida.

Daquele que ainda ama,
Caio Marques

domingo, 8 de julho de 2018


Querida Anita.

Quando acordei, ele havia dependurado nossas horas no varal e partido. O sol de inverno e o vento seco se lançavam sobre as horas estendidas. Eram todas tecido leve e tremulavam na manhã fria do meu quintal. Eu estava só. Vi, de imediato, apesar de estarem perto do cinza da parede do fundo, as horas em que, com a ponta dos dedos, ele desenhou, em movimentos circulares, a bagunça dos meus cabelos. Inúmeros anéis dos – talvez nossos – cabelos, espécies de alianças suspensas, agitavam-se naquela manhã. Minha sensação é de que a pressa ou quem sabe o medo de que eu acordasse e o surpreendesse, obrigaram-no a pendurar essas horas sem o devido cuidado. E lá ficaram, toalhas amarfanhadas e úmidas, perto do ora pro nobis e de seus espinhos que crescem no fundo do terreno. Ao contrário, esticadas ao máximo, quase além do limite, as horas em que ele me abraçou balançavam pesadamente, como um gigantesco lençol, cujas marcas noturnas nenhum sol apagará. Os abraços desfraldados ocupavam a maior parte do quintal, mas nem por isso me impediram de ver outras horas dependuradas como roupas íntimas de mulher que se envergonha de exibir aquilo que cobre o que dizem ser o mais secreto. Num canto, de modo que um visitante jamais repararia, ele pendurou as horas – ou deveria dizer –, os breves momentos, em que no meu carro, ele deslizou sua mão esquerda pelo jeans da minha calça. Essas horas – que duraram o tempo de alguns segundos – estavam para mim no lugar que correspondia ao meu afeto. Sim, porque desconcertado, sem saber o que fazer, e não querendo acreditar no que podia estar acontecendo, não consegui receber o carinho dispensado. Por fim, caídas sobre a grama verde do quintal, estavam as horas em que me falou dele: desejos, sonhos, brincadeiras, desenhos de sua vida, semelhantes a pequenas bonecas de pano, que enfeitam os quartos de tantas meninas desejosas de carinho. Antes do cair da tarde, recolhi uma a uma as horas que ele estendeu para que guardassem o calor e a força do tempo. Ao final, haverá ainda quem diga que há em tudo o que eu disse ao menos um erro. Como se chamar o nome dele pudesse sê-lo. Quem sabe?

Saldades,
Caio Marques

domingo, 25 de março de 2018


Querida Anita,

Quantas perguntas cujas respostas vêm emaranhadas no texto da tua carta. Leio.

Tantas letras minúsculas. Maiúsculas a alternativa e a adição, porque o “Ou” me importa, conduz-me a novos horizontes, leva-me pela mão a um ponto de conversão do olhar enquanto o “E” diz-me que essa volta, esse giro do olhar é mais uma possibilidade a ser acolhida, e ambas, alternativa e adição, são abrigo porque meu saber abraça minha ignorância, cada um dando e recebendo do outro, num movimento dinâmico e solidário. É na conjugação de saber e ignorar que te escrevo.

Quantas vezes repetiste que não sabes? Será que não sabes? Ou sabes até o limite do que ignoras, o limite do não-saber? E sabes que há um limite do saber, tempero delicado que perfuma e dá sabor ao que experimentamos.

Quero compartilhar contigo minha experiência com as palavras e propor uma alternativa às pontes que conduzem da luz para a escuridão, numa via de mão dupla.

Estamos nos aproximando do fim da quaresma. E tantas pessoas pensam em uma só figura. Ando pelas ruas da cidade em que habito e fascinam-me tantos os sentidos das mãos: suplico, peço perdão, confesso meus pecados, arrependo-me, reconheço meu tamanho, busco, abraço, aperto, afago, roço, mal chego a tocar.

Desejo de tocar. Seu corpo. A materialidade de um corpo que não sei dizer se é dele, de quem é. Pergunto-me se um corpo pode pertencer a alguém. E sei dos assíduos abusos e violações diligentemente praticados por tantas gentes, homens esmagadora maioria. Desejo de tocá-lo. Seu corpo.  Materialidade que encarna. O quê exatamente? Vejo-o deitado. Descubro que lhe pertenço, que basta dirigir-me para ele, que já sou seu. Estou dentro dele. E é ele que me possui. Ele me abarca. Dilato-me. E ele sobeja. Voláteis, as fronteiras evaporam e formam nuvens nesse lugar algum que chamamos de firmamento. Ali estamos. No firmamento. E para que ele esteja em mim, basta um leve movimento do pescoço, olhar de esguelha, conversão, giro, sutil genuflexão, curiosidade. Sinto quando ele se dilata em mim e sou eu que sobejo nessa hora. Ele está dentro de mim e sou eu que o possuo.

Não trafego entre a luz e a escuridão. Eis a metáfora que não me encanta. E percebi como eu também me deixei seduzir pelo jogo da luz e da escuridão, canto de sereia que me desviou da palavra.

As palavras são oferendas de sentidos; atos, sim, atos em que simultaneamente agradecemos o que recebemos e colocamos à disposição de outras pessoas aquilo que trazemos.

Por isso, no fim da tua carta, agradeces em maiúsculas três vezes. Não me agradeces. Agradeces transitivamente: as palavras, a experiência. E encerras a carta agradecendo intransitivamente, sem complementos, ainda que a gramática não te autorize.

Serei franco: a clareza e a escuridão são um truque que se perpetua há séculos para reduzir nosso corpo e nossa mente ao olhar. Saber e ignorar de há muito clamam por outras figuras. A nós, missivistas incorrigíveis, a tarefa de escrevê-las.

Todo seu,
Caio Marques.

quarta-feira, 7 de março de 2018


Querida Anita Lopes.

Faz tempo. Como admiro essa expressão ‘faz tempo’: a ideia de fazer tempo.

Escrevo-te e ao mesmo tempo em que traço as palavras no papel, vou dizendo-as em voz alta. Escrevo assim: em alto e bom som. E na minha boca, enquanto move-se a língua úmida, são tantos seixos coloridos que se remoem. E nesse remoer, ouço o som dos seixos que roçam uns nos outros, brilha a faísca inaugural das pequenas pedras que se batem e não sei mais em que língua falo e escrevo. A língua materna empena e nas fissuras alojam-se línguas de curta duração, línguas inexpugnáveis, línguas imprestáveis, línguas bárbaras, línguas compreensíveis apenas daqui para ali, e, mais adiante, aquela mesma palavra dita pela mesma pessoa não oferece mais qualquer sentido.

Queria te escrever sobre seriedades: museu, parque, Lygia Pape, literatura, amor. Escrevo e risco, e desgosto.

A sala está negra. Estou no breu. Os filamentos distendidos parecem fachos de luz, que alumiam. Às vezes vejo suas pontas; amarradas em pregos no chão, formando quadrados. Leves, as sombras dos filamentos. A sala está negra. Estou no breu. Os fios materializam conexões e conduzem a energia que tornará a obra visível. Mas o fio é também corte, como se o breu tivesse sido talhado à faca. A incisão é uma espécie de fibra que dá musculatura à poesia. Escrevo e risco, e corto. E cada talho descobre um fluxo de vida. Salve, Lygia Pape!

As palavras distendidas parecem fachos de luz, que alumiam. Às vezes vejo suas pontas, amarradas em pregos no chão. Leves, as sombras das palavras. A sala está negra. Estou no breu. As palavras materializam conexões e conduzem a energia que tornará a carta legível. Mas a palavra é também corte, como se o breu tivesse sido entalhado à faca. A incisão é uma espécie de fibra, que dá musculatura à poesia. Escrevo, e risco, e gosto. Mesmo daquilo que desgosto, gosto. Um amor pela fibra da palavra, pelo corte da escrita, pelo fio da carta.

Anita, encontrei um guarda-chuva num poema. Faz tempo. Descobri depois que era uma oferenda. O tempo fechou e a chuva obstinada inundou minha boca de seixos. Percebi, então, que é isso o que as palavras fazem, oferecem sentidos, oferendas de sentidos.

Assim como à beira-mar deposito flores para Iemanjá, ofereço essas palavras no mar dos seus olhos, agradecimento e pedido, esperança e satisfação.

Todo seu,
Caio Marques

domingo, 23 de novembro de 2014



A quem saberá esculpir o tempo

 por Alberto Tibaji
com a colaboração de Diego Domingos

II

Sim, estive no quarto dos meus desejos. Não, claro que não. Estive no meu quarto de desejos. Já houve quem se perguntasse se é possível dizer que os sonhos são meus. Eu me pergunto: e os desejos que brotam em mim, a quem pertencem? São apropriados para mim. Por mim?

Caminho numa casa. Não sei como entrei nela. Haverá talvez um dia uma porta de entrada, uma janela escancarada ou um muro e mil possibilidades de saltá-lo. Terei entrado na casa. No momento, estou nela e não percebo o fora. Ando pelos cômodos: objetos tridimensionais estranhos, sem forma reconhecível. Lembra um museu. Pinturas de vários tipos por toda parte. Melhor, quadros. Não, pinturas mesmo. Numa delas, um belíssimo navio naufraga. Não, um navio naufraga belissimamente. Um navio a velas adentra a vastidão do mar. Sim, tudo o que se pode ver do navio a velas brilha por sobre a vastidão da superfície do oceano. A vastidão da superfície. Noutro cômodo, as paredes, as pinturas, tudo coberto de pelos. Deslizo minhas mãos. Para mim, é braile. Um texto que só pode ser lido enquanto textura, como se não houvesse distância, e há. Distância, quero dizer, distância. Se eu fosse fotógrafo, fotografaria esse ‘como se’. Anoto no meu diário que preciso escrever sobre a vastidão da superfície e sobre a vastidão da profundidade. Continuo a esmo. Como se estivesse num museu. Volto ao cômodo de que até então mais gostei. Prossigo. A velha senhora, não sei bem, me guardava. Anoto no meu diário que isso me aflige. Seu olhar me aflige. Quero voltar mais uma vez ao cômodo de que mais gostei. Estou num museu e é como se fosse um labirinto. Não encontro o cômodo. Anoto: e se não conseguir mais sair daqui? Estou preso na casa em que estive no meu quarto de desejos. Talvez tudo tenha sido um sonho. Estou acordado, escrevendo. É como se fosse um texto. Não, o texto é como se fosse um sonho. Melhor, o sonho será como se fosse um texto. Um texto teatral escrito para que um ator deitado e acordado represente um papel que foi escrito para ele. Quero dizer, para mim. Repito: sim, estive no quarto dos meus desejos. Não, claro que não. Estive no meu quarto de desejos. E percebi que não desejo objetos, desejo sujeitos. Melhor, desejo a vastidão fulgurante de cada olhar. Quero dizer, cada olhar como se fosse voragem. Mas só vou entender isso, depois de ter sido aquecido pela luz intermitente do seu olhar. Então vou poder te dizer: quando encontrar a velha senhora, mande lembranças.


I

Você precisa me ouvir. Foi assim que comecei a ligação. Desculpe, mas ontem, quando dei por mim, já não dava mais conta de mim. Avancei o sinal e escorreguei sorrateiro minha mão por debaixo do seu vestido vermelho, na certeza de que alcançaria seu sexo. Mas suas pernas brancas, lençóis de linho egípcio, macias e quase sem pelos, pareciam não ter fim. E de repente encontrei seus olhos. Entrefechados. Sentia seus cílios roçarem a palma da minha mão a cada vez que piscavam e a luz doce dos seus olhos, que emanava intermitente, aquecia meus dedos na noite fria. Perdão, deslizei minha outra mão para debaixo do seu vestido vermelho e mais impetuoso. Não dava conta de mim e deslembrei que estávamos num bar, na mesa, entre amigos. E estranhos à nossa volta. Ávido, agarrei seu braço direito, que outro dia me puxara para si e me abraçara reclinado sobre seu peito. Você, de pele tão alva. E mergulhei na sua geografia. Um dia ainda vou desenhar um mapa do seu corpo do momento em que te toco. Ontem, quando deslizei minhas mãos sob seu vestido vermelho, senti suas longas pernas e logo acima, seus ouvidos, infindáveis labirintos que penetrei com minha voz. Depois dos ouvidos, o abdômen e no abdômen, a boca. E senti firmemente a leveza de um hálito no outro. Quando achei que estava nas suas costas era seu peito que eu alcançava, alvo, seu peito, alvo. Despreocupei-me e quando achava que tocaria sua perna era um pescoço faminto que eu encontrava e quando achava que era seu ombro, segurava firme seus dedos das mãos. E descia minhas mãos pelas suas costas e não dava em suas nádegas, mas na sua língua molhada e tranquila. E acariciava os anéis dos seus cabelos e não era o seu rosto que se seguia, mas o odor do suor das suas axilas. Nada estava no lugar em que se imagina estar. Seu vestido vermelho magicamente embaralhou sua habitual geografia. E quando dei por mim, você estava na minha cama, me olhando fixamente. Desacordei. As mãos molhadas de um gozo que eu não sabia se era seu ou meu acompanharam meu despertar. E sentei-me, só, entre os lençóis, e vi que você era minha zona proibida, e que eu, guiado por um Stalker espectral, saído do filme de Tarkovski, em algum momento, estive no quarto dos desejos.


IV
E se eu te dissesse que tudo o que eu mais queria era que nós estivéssemos exatamente lá, sentados na mesma areia, para que ao final você se levantasse bem lentamente e repetisse: esquece essa mulher, vamos mergulhar na vida, queeridx!

Mais tarde, entramos no mar. Eu ainda não sei dizer que criança era mais velha que a outra, mas consigo afirmar que de um momento para o outro eles se olhavam e novamente faziam de seus olhos um novo espelho... Espelho d'água. Espelho d'alma. Espelho de trava. Travas femininas de formas masculinas e almas delicadamente abruptas.

Ficamos um bom tempo apenas nos olhando. A conversa estava pesada demais. Não saberia dizer quem estava mais confuso: os mesmos olhos, inversamente refletidos defronte ao espelho de um bar qualquer. As poucas coisas que eu conseguia ler em seus olhos, que naquele momento eram meus, não importam mais. Ele estava tão confuso quanto os fios soltos de seu cabelo que não se fixava, mesmo com o excesso de laquê que sua mãe insistia em usar para penteá-los. Linda figura. Engana-se quem pensa que a beleza não fere. Arrisco dizer que sua maior aberração eram os olhos alheios a ele, as línguas que ele ainda não dominava ou simplesmente o encaixe imperfeito de seus olhos com seu espelho. Uma linda aberração nascendo bem diante de meus olhos. Um queer de natureza própria. Um queer “tipo exportação”. Queer por excelência.

Diante do mesmo espelho ele contava sobre algumas imagens que encontrara pela vida, lembrou-se nada emocionado do mergulho que nunca tinha dado na piscina do seu Ramos e seus olhos brilhavam quando apontava para o Gabinete Real. As palavras sempre o seduziram, mas brilho intenso mesmo era quando se lembrava dos vários quadrinhos que durante muito tempo serviram-lhe como quintal de casa, fuga rápida da vizinhança. Ele também ama tapioca. Não qualquer tapioca, dizia ele.

Só uma coisa: vez e outra ele tinha o sotaque de seu ex-nome. Divertia-se ao se lembrar [ironia mesmo era ele se lembrar] de cartas, castelos e famílias portuguesas. Mais uma coisa: ele não é vascaíno.


V
Texto enfatuado. Já houve quem perguntasse se é possível dizer que os sonhos são meus. Eu me pergunto: e o texto que escrevo, a quem pertence? É apropriado para mim. Por mim. Meu filho mais velho me diz que escrever utilizando dicionários é trapacear na escrita. Ele não sabe que o trecho IV deste texto foi escrito por Diego Domingos e que roubei o texto que ele escreveu sobre mim. Um texto apropriado para mim. Por mim. Nada está no lugar em que Diego imaginou estar. Who queers?

Não é possível dizer tudo. Por muitos e variados motivos. Às vezes não é apropriado dizer. Talvez toda palavra seja no mesmo tempo desnecessária e inevitável. Sei não. Mas tenho a sensação de que sim.

Não é possível dizer tudo. Enquanto isso, seguimos refugiados nas palavras. Como se elas nos protegessem, garantissem nossa segurança.

Olho à minha volta e vejo crescer incessante a dificuldade de lidar com os desejos. Dobro a esquina e vejo um bêbado refugiado em sua palavra: a dizer o que nem sabe que diz, a dizer o que queria dizer e não tem coragem de dizer porque é verdade doída, porque é fraqueza admitida, porque é raiva, vingança destampada. Vejo também uma mulher apaixonada, refugiada em sua palavra: a dizer o que nem sabe que diz, a dizer que sente a dor da ausência, que sente a dor do desencontro, e é o medo do encontro que teme, o medo de largar a certeza de uma história pela incerteza de um verdadeiro encontro.

O bêbado e a apaixonada acreditam na propriedade dos desejos, acreditam que são os donos de seus desejos, que os desejos são seus.

No meu caso, o quarto é que é meu: ali confabulamos, negociamos, trapaceamos, nos rendemos, nos surpreendemos. Os desejos e eu. Não sou um refugiado. Estive – ou estou – no meu quarto de desejos. Apropriados por mim. Um mim que não pré-existe à apropriação nem ao desejo, mas que vai se minstituindo a cada apropriação.

E assim, por vezes, meus desejos são sonhos, meus sonhos são textos e meus textos são desejos. E quando acho que cheguei ao fim de um texto foi um desejo que realizei, e quando acho que foi um sonho que tive, foi um texto que escrevi e quando acho que foi um desejo que senti, foi um sonho que sonhei. E nada está no lugar que você imagina que deveria estar: e há momentos em que não há mais nada a dizer.

III
04:35 da manhã. Sonho. Sua mãe te conduz à Praia de Copacabana. Velha senhora. O ônibus pára. Desce uma mulher. Você e sua mãe descem em seguida. Você não devia ter me contado esse sonho. Ele é apropriado para mim. Por mim. Todo o caminho a mulher segue à sua frente. Vocês estão indo a um entrelugar, discreto promontório, entre duas praias. É madrugada. Não se vê muito. Você tem medo. A velha senhora segue e te conduz à sua revelia. Perdão, cariocas, em geral, misturam as pessoas. Você no seu terno, irritado, resmunga. Na rua, sobre a calçada, no meio do seu caminho, um agasalho. Você guarda consigo. Talvez pertença à mulher que segue à frente. Vocês estão atrás dela, mas não a seguem. A mulher parece simpática. Você guarda o ímpeto de perguntar se o agasalho lhe pertence. Não pergunta. Sua roupa é nitidamente masculina. E você? Na chegada ao promontório, a mulher que segue à frente sumiu. Você se desvencilha da sua mãe e segue seu próprio caminho. Não está atrás de ninguém. Segue à frente e só. O mar alcançou você. Seus pés, nos sapatos de couro marrom, afundam na areia. Talvez não seja apropriado vir à praia de terno. Você não se incomoda com o fato. Eis uma ironia da língua. Há uma nova velha senhora à sua frente. Você pede licença. Há outras pessoas. A passagem é estreita. Sinto como se fosse o meu corpo que roça o corpo da velha senhora, roça o corpo de outras pessoas na passagem estreita entre as rochas. De novo a leitura como textura. O contato com a vastidão da superfície e o erotismo da flor da pele. Tudo como se eu fosse você. Você não devia ter me contado o seu sonho.

Você está molhado, com água até o pescoço. Pela primeira vez neste texto você está feliz porque não se incomoda mais com estar de fato no mar, perdão, de terno no mar. De fato, você entrou no mar, ainda que, em geral, não seja apropriado. Mas você não está nem aí. Está dormindo e sonhando. E o sonho será como se fosse um texto. E este texto será um sonho de fato, palavras vestidas de um sentido improvável, sonho trajado de ficção, como se fosse um homem de terno que se banha no mar, como se de fato nada estivesse no lugar em que se imagina que deveria estar.