domingo, 25 de março de 2018


Querida Anita,

Quantas perguntas cujas respostas vêm emaranhadas no texto da tua carta. Leio.

Tantas letras minúsculas. Maiúsculas a alternativa e a adição, porque o “Ou” me importa, conduz-me a novos horizontes, leva-me pela mão a um ponto de conversão do olhar enquanto o “E” diz-me que essa volta, esse giro do olhar é mais uma possibilidade a ser acolhida, e ambas, alternativa e adição, são abrigo porque meu saber abraça minha ignorância, cada um dando e recebendo do outro, num movimento dinâmico e solidário. É na conjugação de saber e ignorar que te escrevo.

Quantas vezes repetiste que não sabes? Será que não sabes? Ou sabes até o limite do que ignoras, o limite do não-saber? E sabes que há um limite do saber, tempero delicado que perfuma e dá sabor ao que experimentamos.

Quero compartilhar contigo minha experiência com as palavras e propor uma alternativa às pontes que conduzem da luz para a escuridão, numa via de mão dupla.

Estamos nos aproximando do fim da quaresma. E tantas pessoas pensam em uma só figura. Ando pelas ruas da cidade em que habito e fascinam-me tantos os sentidos das mãos: suplico, peço perdão, confesso meus pecados, arrependo-me, reconheço meu tamanho, busco, abraço, aperto, afago, roço, mal chego a tocar.

Desejo de tocar. Seu corpo. A materialidade de um corpo que não sei dizer se é dele, de quem é. Pergunto-me se um corpo pode pertencer a alguém. E sei dos assíduos abusos e violações diligentemente praticados por tantas gentes, homens esmagadora maioria. Desejo de tocá-lo. Seu corpo.  Materialidade que encarna. O quê exatamente? Vejo-o deitado. Descubro que lhe pertenço, que basta dirigir-me para ele, que já sou seu. Estou dentro dele. E é ele que me possui. Ele me abarca. Dilato-me. E ele sobeja. Voláteis, as fronteiras evaporam e formam nuvens nesse lugar algum que chamamos de firmamento. Ali estamos. No firmamento. E para que ele esteja em mim, basta um leve movimento do pescoço, olhar de esguelha, conversão, giro, sutil genuflexão, curiosidade. Sinto quando ele se dilata em mim e sou eu que sobejo nessa hora. Ele está dentro de mim e sou eu que o possuo.

Não trafego entre a luz e a escuridão. Eis a metáfora que não me encanta. E percebi como eu também me deixei seduzir pelo jogo da luz e da escuridão, canto de sereia que me desviou da palavra.

As palavras são oferendas de sentidos; atos, sim, atos em que simultaneamente agradecemos o que recebemos e colocamos à disposição de outras pessoas aquilo que trazemos.

Por isso, no fim da tua carta, agradeces em maiúsculas três vezes. Não me agradeces. Agradeces transitivamente: as palavras, a experiência. E encerras a carta agradecendo intransitivamente, sem complementos, ainda que a gramática não te autorize.

Serei franco: a clareza e a escuridão são um truque que se perpetua há séculos para reduzir nosso corpo e nossa mente ao olhar. Saber e ignorar de há muito clamam por outras figuras. A nós, missivistas incorrigíveis, a tarefa de escrevê-las.

Todo seu,
Caio Marques.

quarta-feira, 7 de março de 2018


Querida Anita Lopes.

Faz tempo. Como admiro essa expressão ‘faz tempo’: a ideia de fazer tempo.

Escrevo-te e ao mesmo tempo em que traço as palavras no papel, vou dizendo-as em voz alta. Escrevo assim: em alto e bom som. E na minha boca, enquanto move-se a língua úmida, são tantos seixos coloridos que se remoem. E nesse remoer, ouço o som dos seixos que roçam uns nos outros, brilha a faísca inaugural das pequenas pedras que se batem e não sei mais em que língua falo e escrevo. A língua materna empena e nas fissuras alojam-se línguas de curta duração, línguas inexpugnáveis, línguas imprestáveis, línguas bárbaras, línguas compreensíveis apenas daqui para ali, e, mais adiante, aquela mesma palavra dita pela mesma pessoa não oferece mais qualquer sentido.

Queria te escrever sobre seriedades: museu, parque, Lygia Pape, literatura, amor. Escrevo e risco, e desgosto.

A sala está negra. Estou no breu. Os filamentos distendidos parecem fachos de luz, que alumiam. Às vezes vejo suas pontas; amarradas em pregos no chão, formando quadrados. Leves, as sombras dos filamentos. A sala está negra. Estou no breu. Os fios materializam conexões e conduzem a energia que tornará a obra visível. Mas o fio é também corte, como se o breu tivesse sido talhado à faca. A incisão é uma espécie de fibra que dá musculatura à poesia. Escrevo e risco, e corto. E cada talho descobre um fluxo de vida. Salve, Lygia Pape!

As palavras distendidas parecem fachos de luz, que alumiam. Às vezes vejo suas pontas, amarradas em pregos no chão. Leves, as sombras das palavras. A sala está negra. Estou no breu. As palavras materializam conexões e conduzem a energia que tornará a carta legível. Mas a palavra é também corte, como se o breu tivesse sido entalhado à faca. A incisão é uma espécie de fibra, que dá musculatura à poesia. Escrevo, e risco, e gosto. Mesmo daquilo que desgosto, gosto. Um amor pela fibra da palavra, pelo corte da escrita, pelo fio da carta.

Anita, encontrei um guarda-chuva num poema. Faz tempo. Descobri depois que era uma oferenda. O tempo fechou e a chuva obstinada inundou minha boca de seixos. Percebi, então, que é isso o que as palavras fazem, oferecem sentidos, oferendas de sentidos.

Assim como à beira-mar deposito flores para Iemanjá, ofereço essas palavras no mar dos seus olhos, agradecimento e pedido, esperança e satisfação.

Todo seu,
Caio Marques

domingo, 23 de novembro de 2014



A quem saberá esculpir o tempo

 por Alberto Tibaji
com a colaboração de Diego Domingos

II

Sim, estive no quarto dos meus desejos. Não, claro que não. Estive no meu quarto de desejos. Já houve quem se perguntasse se é possível dizer que os sonhos são meus. Eu me pergunto: e os desejos que brotam em mim, a quem pertencem? São apropriados para mim. Por mim?

Caminho numa casa. Não sei como entrei nela. Haverá talvez um dia uma porta de entrada, uma janela escancarada ou um muro e mil possibilidades de saltá-lo. Terei entrado na casa. No momento, estou nela e não percebo o fora. Ando pelos cômodos: objetos tridimensionais estranhos, sem forma reconhecível. Lembra um museu. Pinturas de vários tipos por toda parte. Melhor, quadros. Não, pinturas mesmo. Numa delas, um belíssimo navio naufraga. Não, um navio naufraga belissimamente. Um navio a velas adentra a vastidão do mar. Sim, tudo o que se pode ver do navio a velas brilha por sobre a vastidão da superfície do oceano. A vastidão da superfície. Noutro cômodo, as paredes, as pinturas, tudo coberto de pelos. Deslizo minhas mãos. Para mim, é braile. Um texto que só pode ser lido enquanto textura, como se não houvesse distância, e há. Distância, quero dizer, distância. Se eu fosse fotógrafo, fotografaria esse ‘como se’. Anoto no meu diário que preciso escrever sobre a vastidão da superfície e sobre a vastidão da profundidade. Continuo a esmo. Como se estivesse num museu. Volto ao cômodo de que até então mais gostei. Prossigo. A velha senhora, não sei bem, me guardava. Anoto no meu diário que isso me aflige. Seu olhar me aflige. Quero voltar mais uma vez ao cômodo de que mais gostei. Estou num museu e é como se fosse um labirinto. Não encontro o cômodo. Anoto: e se não conseguir mais sair daqui? Estou preso na casa em que estive no meu quarto de desejos. Talvez tudo tenha sido um sonho. Estou acordado, escrevendo. É como se fosse um texto. Não, o texto é como se fosse um sonho. Melhor, o sonho será como se fosse um texto. Um texto teatral escrito para que um ator deitado e acordado represente um papel que foi escrito para ele. Quero dizer, para mim. Repito: sim, estive no quarto dos meus desejos. Não, claro que não. Estive no meu quarto de desejos. E percebi que não desejo objetos, desejo sujeitos. Melhor, desejo a vastidão fulgurante de cada olhar. Quero dizer, cada olhar como se fosse voragem. Mas só vou entender isso, depois de ter sido aquecido pela luz intermitente do seu olhar. Então vou poder te dizer: quando encontrar a velha senhora, mande lembranças.


I

Você precisa me ouvir. Foi assim que comecei a ligação. Desculpe, mas ontem, quando dei por mim, já não dava mais conta de mim. Avancei o sinal e escorreguei sorrateiro minha mão por debaixo do seu vestido vermelho, na certeza de que alcançaria seu sexo. Mas suas pernas brancas, lençóis de linho egípcio, macias e quase sem pelos, pareciam não ter fim. E de repente encontrei seus olhos. Entrefechados. Sentia seus cílios roçarem a palma da minha mão a cada vez que piscavam e a luz doce dos seus olhos, que emanava intermitente, aquecia meus dedos na noite fria. Perdão, deslizei minha outra mão para debaixo do seu vestido vermelho e mais impetuoso. Não dava conta de mim e deslembrei que estávamos num bar, na mesa, entre amigos. E estranhos à nossa volta. Ávido, agarrei seu braço direito, que outro dia me puxara para si e me abraçara reclinado sobre seu peito. Você, de pele tão alva. E mergulhei na sua geografia. Um dia ainda vou desenhar um mapa do seu corpo do momento em que te toco. Ontem, quando deslizei minhas mãos sob seu vestido vermelho, senti suas longas pernas e logo acima, seus ouvidos, infindáveis labirintos que penetrei com minha voz. Depois dos ouvidos, o abdômen e no abdômen, a boca. E senti firmemente a leveza de um hálito no outro. Quando achei que estava nas suas costas era seu peito que eu alcançava, alvo, seu peito, alvo. Despreocupei-me e quando achava que tocaria sua perna era um pescoço faminto que eu encontrava e quando achava que era seu ombro, segurava firme seus dedos das mãos. E descia minhas mãos pelas suas costas e não dava em suas nádegas, mas na sua língua molhada e tranquila. E acariciava os anéis dos seus cabelos e não era o seu rosto que se seguia, mas o odor do suor das suas axilas. Nada estava no lugar em que se imagina estar. Seu vestido vermelho magicamente embaralhou sua habitual geografia. E quando dei por mim, você estava na minha cama, me olhando fixamente. Desacordei. As mãos molhadas de um gozo que eu não sabia se era seu ou meu acompanharam meu despertar. E sentei-me, só, entre os lençóis, e vi que você era minha zona proibida, e que eu, guiado por um Stalker espectral, saído do filme de Tarkovski, em algum momento, estive no quarto dos desejos.


IV
E se eu te dissesse que tudo o que eu mais queria era que nós estivéssemos exatamente lá, sentados na mesma areia, para que ao final você se levantasse bem lentamente e repetisse: esquece essa mulher, vamos mergulhar na vida, queeridx!

Mais tarde, entramos no mar. Eu ainda não sei dizer que criança era mais velha que a outra, mas consigo afirmar que de um momento para o outro eles se olhavam e novamente faziam de seus olhos um novo espelho... Espelho d'água. Espelho d'alma. Espelho de trava. Travas femininas de formas masculinas e almas delicadamente abruptas.

Ficamos um bom tempo apenas nos olhando. A conversa estava pesada demais. Não saberia dizer quem estava mais confuso: os mesmos olhos, inversamente refletidos defronte ao espelho de um bar qualquer. As poucas coisas que eu conseguia ler em seus olhos, que naquele momento eram meus, não importam mais. Ele estava tão confuso quanto os fios soltos de seu cabelo que não se fixava, mesmo com o excesso de laquê que sua mãe insistia em usar para penteá-los. Linda figura. Engana-se quem pensa que a beleza não fere. Arrisco dizer que sua maior aberração eram os olhos alheios a ele, as línguas que ele ainda não dominava ou simplesmente o encaixe imperfeito de seus olhos com seu espelho. Uma linda aberração nascendo bem diante de meus olhos. Um queer de natureza própria. Um queer “tipo exportação”. Queer por excelência.

Diante do mesmo espelho ele contava sobre algumas imagens que encontrara pela vida, lembrou-se nada emocionado do mergulho que nunca tinha dado na piscina do seu Ramos e seus olhos brilhavam quando apontava para o Gabinete Real. As palavras sempre o seduziram, mas brilho intenso mesmo era quando se lembrava dos vários quadrinhos que durante muito tempo serviram-lhe como quintal de casa, fuga rápida da vizinhança. Ele também ama tapioca. Não qualquer tapioca, dizia ele.

Só uma coisa: vez e outra ele tinha o sotaque de seu ex-nome. Divertia-se ao se lembrar [ironia mesmo era ele se lembrar] de cartas, castelos e famílias portuguesas. Mais uma coisa: ele não é vascaíno.


V
Texto enfatuado. Já houve quem perguntasse se é possível dizer que os sonhos são meus. Eu me pergunto: e o texto que escrevo, a quem pertence? É apropriado para mim. Por mim. Meu filho mais velho me diz que escrever utilizando dicionários é trapacear na escrita. Ele não sabe que o trecho IV deste texto foi escrito por Diego Domingos e que roubei o texto que ele escreveu sobre mim. Um texto apropriado para mim. Por mim. Nada está no lugar em que Diego imaginou estar. Who queers?

Não é possível dizer tudo. Por muitos e variados motivos. Às vezes não é apropriado dizer. Talvez toda palavra seja no mesmo tempo desnecessária e inevitável. Sei não. Mas tenho a sensação de que sim.

Não é possível dizer tudo. Enquanto isso, seguimos refugiados nas palavras. Como se elas nos protegessem, garantissem nossa segurança.

Olho à minha volta e vejo crescer incessante a dificuldade de lidar com os desejos. Dobro a esquina e vejo um bêbado refugiado em sua palavra: a dizer o que nem sabe que diz, a dizer o que queria dizer e não tem coragem de dizer porque é verdade doída, porque é fraqueza admitida, porque é raiva, vingança destampada. Vejo também uma mulher apaixonada, refugiada em sua palavra: a dizer o que nem sabe que diz, a dizer que sente a dor da ausência, que sente a dor do desencontro, e é o medo do encontro que teme, o medo de largar a certeza de uma história pela incerteza de um verdadeiro encontro.

O bêbado e a apaixonada acreditam na propriedade dos desejos, acreditam que são os donos de seus desejos, que os desejos são seus.

No meu caso, o quarto é que é meu: ali confabulamos, negociamos, trapaceamos, nos rendemos, nos surpreendemos. Os desejos e eu. Não sou um refugiado. Estive – ou estou – no meu quarto de desejos. Apropriados por mim. Um mim que não pré-existe à apropriação nem ao desejo, mas que vai se minstituindo a cada apropriação.

E assim, por vezes, meus desejos são sonhos, meus sonhos são textos e meus textos são desejos. E quando acho que cheguei ao fim de um texto foi um desejo que realizei, e quando acho que foi um sonho que tive, foi um texto que escrevi e quando acho que foi um desejo que senti, foi um sonho que sonhei. E nada está no lugar que você imagina que deveria estar: e há momentos em que não há mais nada a dizer.

III
04:35 da manhã. Sonho. Sua mãe te conduz à Praia de Copacabana. Velha senhora. O ônibus pára. Desce uma mulher. Você e sua mãe descem em seguida. Você não devia ter me contado esse sonho. Ele é apropriado para mim. Por mim. Todo o caminho a mulher segue à sua frente. Vocês estão indo a um entrelugar, discreto promontório, entre duas praias. É madrugada. Não se vê muito. Você tem medo. A velha senhora segue e te conduz à sua revelia. Perdão, cariocas, em geral, misturam as pessoas. Você no seu terno, irritado, resmunga. Na rua, sobre a calçada, no meio do seu caminho, um agasalho. Você guarda consigo. Talvez pertença à mulher que segue à frente. Vocês estão atrás dela, mas não a seguem. A mulher parece simpática. Você guarda o ímpeto de perguntar se o agasalho lhe pertence. Não pergunta. Sua roupa é nitidamente masculina. E você? Na chegada ao promontório, a mulher que segue à frente sumiu. Você se desvencilha da sua mãe e segue seu próprio caminho. Não está atrás de ninguém. Segue à frente e só. O mar alcançou você. Seus pés, nos sapatos de couro marrom, afundam na areia. Talvez não seja apropriado vir à praia de terno. Você não se incomoda com o fato. Eis uma ironia da língua. Há uma nova velha senhora à sua frente. Você pede licença. Há outras pessoas. A passagem é estreita. Sinto como se fosse o meu corpo que roça o corpo da velha senhora, roça o corpo de outras pessoas na passagem estreita entre as rochas. De novo a leitura como textura. O contato com a vastidão da superfície e o erotismo da flor da pele. Tudo como se eu fosse você. Você não devia ter me contado o seu sonho.

Você está molhado, com água até o pescoço. Pela primeira vez neste texto você está feliz porque não se incomoda mais com estar de fato no mar, perdão, de terno no mar. De fato, você entrou no mar, ainda que, em geral, não seja apropriado. Mas você não está nem aí. Está dormindo e sonhando. E o sonho será como se fosse um texto. E este texto será um sonho de fato, palavras vestidas de um sentido improvável, sonho trajado de ficção, como se fosse um homem de terno que se banha no mar, como se de fato nada estivesse no lugar em que se imagina que deveria estar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Querida Anita.



A quem mais eu poderia me dirigir? Tantas pessoas me apontam – e com razão –, dizendo que sou um amigo nada constante. E você, Anita, sempre me acolhe. Ao menos até agora. Hoje não tenho muitas reflexões. Quero escrever.

Estou deitado de costas no cimentado dos fundos da minha casa. O chão ainda está quente do sol que o aqueceu durante a tarde. Fecharei os olhos. O grito de um gavião me traz de volta de um devaneio. Muito raramente ouço o latido de um cão. Escurecerá. A lua estará redonda redonda. E eu, deitado na minha cama, verei no céu a luz da lua. Fotografo a beleza do pertencimento dessa luz. Não me pergunto o que é correto. Prossigo. Uma brisa me traz de volta para o cimento. Sinto uma formiga – deve ser uma formiga – subindo pela minha coxa. Esquerda. Poderia ter chutado a taça vazia de vinho que deixei perto da escada. Prossigo. A cada dia limito-me a lamentar o sofrimento e a ignorância das pessoas. O medo de estar diante da paisagem – sem ponto de fuga – de um rosto. Sentei-me e olhei quase certeiramente para o rosto de Virgílio. Lembro. Retive a respiração. Não por muito tempo. Levei minha mão ao seu rosto. Anita, um dia as palavras que dirão o arrebatamento do gesto de tocar um rosto terão sido grafadas por mim. Sabe que há muito tempo, ao me acariciar, meu pai tocou um rosto que não era meu?

Deitado ao meu lado. Olhos mirando o tempo. Fui sorvido pela voragem de seu rosto. Em breve a queda desaguará num lago plácido. Soube que acredito nas palavras. Soube que acredito no sentido. Esvaiu-se, pelo corte insuturável, a realidade. Sei que essa brincadeira entre eu e as palavras tem fim. Dentro da casa, meu filho joga. E eu aqui. Do lado de fora. Insistindo. Será que posso dizer que um dia minha vida terá se dispersado num amontoado de papéis?
Muita saudade,
caioMARques

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Querida Anita


Espero que esta te encontre bem de saúde. Assim, caso eu tivesse agora meus dez anos de idade, eu iniciaria esta carta. Perguntaria pelos seus. Você entenderia. E contaria sobre como tem sido minha vida. Pediria desculpas pela minha demora em te mandar notícias minhas. Demora que sempre se repete. Mas não tenho mais dez anos de idade e a carta começa em tom categórico. Assim

Definitivamente não sei ser quem sou. E me arrependo de ter dito definitivamente. E avalio que não me arrependi de tê-lo dito. Talvez me desfaça dessa culpa tão constante e apenas observe que não sinto necessidade de ser quem sou. Não é bem isso.

Não sei me conjugar apenas no presente. Sou um serei inabordável. Não fui aquilo que vivi. Conjugar-me é outro modo de estar desajuntado de mim. E a poesia nem sempre é agradável. Dói.

Um homem marcou indelevelmente a minha vida. Vou chamá-lo de Luizir. Éramos um trio: Luizir, Jurema e eu. Jurema disse: “não sei como vocês nunca namoraram! Ele te amava tanto, mas tinha medo do seu não”. E eu do dele. Mas ele não se despediu de mim. Deixou várias cartas, nenhuma para mim. Corri. Meus longos cabelos de cachos loiros tiveram medo. No canto de um quarto que não era só meu, tive vontade de viver como se cada momento fosse o último. Nas noites de insônia, quando o teto era meu confidente, concluía que tudo tinha sido como devia ser. E prossegui: marcado por sua ausência, sabedor de que a felicidade não está nas imediações do último instante nem está na certeza de que tudo está em seu lugar. Felicidade não se conjuga. E lembro das canções que mamãe ouvia: “Vem logo/Vem curar seu nego/Que chegou de porre/Lá da boemia”; “Canta, canta minha gente/Deixa a tristeza pra lá/Canta forte, canta alto/Que a vida vai melhorar”; “Eu vou me banhar de manjericão/Vou sacudir a poeira do corpo/Batendo com a mão/E vou voltar/Lá pro meu congado”.

Interrompo aqui esta carta, que talvez seja um fantasma da despedida que não li, e ainda um eco das cartas enviadas por meu pai e que mamãe lia em voz alta quando estávamos longe dele, ao norte.

Daquele que não tem nome próprio,

todo seu,
Caio

Ao Virgílio


Sua pele anoiteceu. Meus olhos enluarados percorrem a vastidão da noite. Deitado, aos soluços, você não sente minha presença. Confuso, toma bem umas dez decisões diferentes e contraditórias. Eu, imóvel, discorro. Você não me ouve. Olha na minha direção. Aproximo-me. Repouso minha mão sobre sua pele, breu coalhado de estrelas. Você pressente. Eu presente. Você presente. Do mergulho na noite rescende um perfume de homem. Todo seu. O perfume. Eu. Todo seu. Você lê muitas dobras do meu ser. Você me desdobra. Você se desdobra. Embrenhados na escuridão, nosso tato varia. Se é você que se recosta no meu peito, se sou eu que me recosto no seu peito? Se é meu órgão que está rijo, se é o seu que jorra de prazer? Quem sabe?
Reviro-me. Estamos inquietos. Nem sombra de amanhecer. Deitado na minha cama, vejo seu vulto se aproximar. Aguardo suas palavras. O poeta  é você.

Herança e origem




Alguns filhos se envergonham do seu pai. Outros admiram-no. Certamente há aqueles que sentem repulsa e há os que o idolatram.
Meu pai me deixou um muro. Muro alto, muito. Muro de arrimo. Sem ele nossa casa já teria desabado. Volto à casa em que nasci e o que encontro é esse muro, sustento da minha origem. E me impressiono. Meu pai não deixou fortuna. Nada que tenha mudado os rumos da ciência ou beneficiado a humanidade, mas sozinho ergueu isso que sustenta nossa casa. Não sei se desejo ser como ele, mas, se um dia tiver um filho, gostaria que ele soubesse do valor de coisas como esse muro de arrimo.
Dia desses sonhei que a casa era quase levada por uma chuva torrencial. As paredes começaram a rachar e minha avó materna nonagenária resolvia – e conseguia – segurar a parede da casa. No sonho ela me dizia que era ela quem deveria salvar a casa, já que era ela a responsável pelo desabamento.
Há muito tempo que não tento decifrar meus sonhos. Sei que eles não têm um significado misterioso, são uma espécie de propulsão para a elaboração de algumas vivências, sejam elas boas ou ruins.
Ora a impressão de um pai precavido e laborioso, arrimo de família, ora o medo e o espanto diante da avó, origem dos problemas e salvação dos mesmos.
Os dois gestos são fabulosos: um impressiona, o outro espanta.
Mas esse pai me deixou. Pouco importa se foi a morte que o levou, sinto-me só, abandonado. Essa avó me acolhe, até hoje, sinto-me protegido, compreendido no que sou.
A água torrencial que escorre pelo meu corpo, enquanto permaneço sentado nos degraus do alpendre da casa, lava minha alma. E talvez, talvez, eu não seja quem digo ser. E esse pai é pai de um outro homem, um pai que não foi levado pela morte, pai admirado pelo filho que, ainda assim, se sente só. E a avó materna, essa sim já falecida, de longos cabelos grisalhos, era aquela que com seu canto de sereia carregava o menino para um mundo de estórias.
Volto-me. Levanto dos degraus. Não és nem eu nem ele. És pedras figurando belo mosaico, palavras coloridas girando num caleidoscópio. Desço cuidadosamente a ladeira. Não há porque aguardar. Sem pressa,visivelmente confundo-me cada vez mais.
Caio Marques