Há em mim uma forte necessidade da letra. A vida ativa um espectro de palavras.
Adoro cartas. São para mim, neste momento, a possibilidade de falar para alguém que tem um nome, mas, ao mesmo tempo, para todo e qualquer um que venha a ler estas palavras.
Começo. Na despedida, já estou vestido, e você pega a manga esquerda da minha camisa. Abotoa atentamente meu punho. Busca a outra manga – haveria desejo seu de outro punho a ser abotoado?
Não há.
Leio isso: manifestação de carinho da sua parte, desejo de me ver arrumado, bonito. Detalhe de suma importância. Sim, foi isso que li. Você também aprecia os detalhes, são de suma importância. Vi, então, você, atento, lendo as linhas da mão de uma folha. Vi você extasiado com o sopro da brisa – e me reiterava, não é a brisa, é o sopro – àquela hora da manhã quando a janela do quarto e a porta da cozinha estavam abertas. Vi você absorto, tentando se aproximar da sensação do peso da caneta sobre o papel e do peso da sombra sobre a parede.
Assim foi nossa noite. Colorida pela balbúrdia do tato. E os nervos e músculos ativados do seu corpo rescendiam um aroma constante e rico. As palavras, o queixo, o peito, a axila, e também a ponta dos dedos, as costas, uma dobra, uma pinta, tudo corpo. O sexo também.
Certa vez certo poeta me disse que tratava as palavras para que fossem um lago de superfície cristalina. Assim, o leitor veria toda palavra em sua profundidade. Não lembro bem se foi um escritor, mas me disse cuido da
palavra bruta
sem qualidades
sem carregamentos
desprovida de autonomia
palavra bruta
seus resíduos
suas contaminações
arranhões e cicatrizes de todo tipo
rastos de seu atrito com a realidade
tudo são pertencimentos
sou a minha palavra bruta
e um dia serei quem digo ser
ainda que eu seja
hoje
este que digo ser
um dia
amanhã
minha palavra bruta correrá em minhas artérias
irrigará todo meu corpo
amanhã
quando acordar
uma preposição correrá entre os dedos das mãos e dos pés
artigos em meus ouvidos
nas pontas dos dedos vibrarão substantivos abstratos
e meu corpo terá sido palavra
e minha palavra terá sido corpo.
Abraço forte
do seu
Caio
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
Resposta à Carta de Anita sobre os ipês
Anita.
O que é o tempo? O que você perdeu por não fotografar o ipê? Os detalhes rajados das flores? Seu viço? Sua força? Sem a foto fica a lembrança que lentamente se esvai. Até sumir. A lembrança e o ipê. Com a foto o que você teria? O viço? Os detalhes rajados das flores? Sua força? O que a foto garante?
Então imagino o que teria acontecido caso eu não tivesse viajado para o norte e numa espécie de lampejo, me visse no espelho e se descortinassem meus limites. Mas esse é talvez o seu sonho escrito por mim nesta carta para você. Esta é a carta que você queria que eu escrevesse. Mas não tive esse lampejo. Não se descortinaram meus limites. Fui para o norte e, quando voltei, você havia partido. Então imagino: o que teria acontecido se você tivesse me esperado?
O que você ganhou por não fotografar o ipê? O que ganhamos por termos a relação que temos? Cada um dentro dos seus limites? Você, então, me olha com seu olhar cansado da minha dificuldade de ver meus próprios limites – e você já existe em mim, há uma Anita que não cessa de se remexer em mim – e me pergunto se isso não é fácil demais, se isso não é apenas retórica. Seria fácil – talvez até bom – se a cada opção que fazemos na vida estivéssemos sempre pensando em tudo o que ganhamos e jamais no que perdemos. Um modo que as meninas e moças de antigamente conheciam bem. Um modo Pollyana de ser. Talvez seja isso. Ou talvez seja apenas um “ça m’est égal” e eu seja outro Meursault. Um Meursault real.
Mas eu estaria mentindo se dissesse que não vivo assombrado pelos fantasmas de tudo aquilo que não vivi. Há sobretudo um: nunca te falei da paixão que senti por um colega de graduação chamado Luiz Eduardo. Sim, Anita, um homem. Luizé, como eu brincava, usava aliança de noivado, mas na faculdade todos sabíamos de sua preferência pelos homens. A aliança era um engodo para a família. Luizé tinha um companheiro de longa data, com quem dividia um apartamento. Lima, como ele se apresentou uma vez, era apaixonadamente tolerante. Luizé tinha, vez em quando, alguns namorados. Nunca tive coragem de dizer de modo explícito que o amava.
Num domingo, depois de apresentar Édipo rei, aproveitando que Lima estava viajando, Luiz Eduardo preparou seu banho e não abriu a água, só o gás.
Assim foi.
Fiquei durante anos assombrado pelo meu silêncio, pelo amor que não vivemos – no momento do velório, uma amiga em comum expressou sua incompreensão diante da dificuldade que sentíamos em dizer que nos amávamos. Não o fotografei. Não o beijei.
Como lidar com esses fantasmas? Teria sido feliz, caso tivesse vivido com Luiz Eduardo? E mais: o que significa meu amor pelos homens? Sim, Anita, houve outros depois do Luiz Eduardo. Teria sido melhor estar até hoje casado com Maria Emília?
Seu olhar novamente me inunda e você me diz: não estou falando de Luiz Eduardo, Maria Emília ou seja lá quem for. Estou falando de Anita.
Então finalmente vejo meus limites e te digo: estamos em tempos diferentes. Não são velocidades diferentes. Nossos tempos são díspares. Não vou fazer uma sessão de psicanálise com você agora, mas não tenho condições afetivas de viver com você uma relação amorosa de companheirismo. Não que você seja mais evoluída do que eu ou que esteja mais preparada do que eu. Não me sinto disposto para isso.
Aguardo sua resposta.
Amo este nosso diálogo
Forte abraço.
Caio Marques
O que é o tempo? O que você perdeu por não fotografar o ipê? Os detalhes rajados das flores? Seu viço? Sua força? Sem a foto fica a lembrança que lentamente se esvai. Até sumir. A lembrança e o ipê. Com a foto o que você teria? O viço? Os detalhes rajados das flores? Sua força? O que a foto garante?
Então imagino o que teria acontecido caso eu não tivesse viajado para o norte e numa espécie de lampejo, me visse no espelho e se descortinassem meus limites. Mas esse é talvez o seu sonho escrito por mim nesta carta para você. Esta é a carta que você queria que eu escrevesse. Mas não tive esse lampejo. Não se descortinaram meus limites. Fui para o norte e, quando voltei, você havia partido. Então imagino: o que teria acontecido se você tivesse me esperado?
O que você ganhou por não fotografar o ipê? O que ganhamos por termos a relação que temos? Cada um dentro dos seus limites? Você, então, me olha com seu olhar cansado da minha dificuldade de ver meus próprios limites – e você já existe em mim, há uma Anita que não cessa de se remexer em mim – e me pergunto se isso não é fácil demais, se isso não é apenas retórica. Seria fácil – talvez até bom – se a cada opção que fazemos na vida estivéssemos sempre pensando em tudo o que ganhamos e jamais no que perdemos. Um modo que as meninas e moças de antigamente conheciam bem. Um modo Pollyana de ser. Talvez seja isso. Ou talvez seja apenas um “ça m’est égal” e eu seja outro Meursault. Um Meursault real.
Mas eu estaria mentindo se dissesse que não vivo assombrado pelos fantasmas de tudo aquilo que não vivi. Há sobretudo um: nunca te falei da paixão que senti por um colega de graduação chamado Luiz Eduardo. Sim, Anita, um homem. Luizé, como eu brincava, usava aliança de noivado, mas na faculdade todos sabíamos de sua preferência pelos homens. A aliança era um engodo para a família. Luizé tinha um companheiro de longa data, com quem dividia um apartamento. Lima, como ele se apresentou uma vez, era apaixonadamente tolerante. Luizé tinha, vez em quando, alguns namorados. Nunca tive coragem de dizer de modo explícito que o amava.
Num domingo, depois de apresentar Édipo rei, aproveitando que Lima estava viajando, Luiz Eduardo preparou seu banho e não abriu a água, só o gás.
Assim foi.
Fiquei durante anos assombrado pelo meu silêncio, pelo amor que não vivemos – no momento do velório, uma amiga em comum expressou sua incompreensão diante da dificuldade que sentíamos em dizer que nos amávamos. Não o fotografei. Não o beijei.
Como lidar com esses fantasmas? Teria sido feliz, caso tivesse vivido com Luiz Eduardo? E mais: o que significa meu amor pelos homens? Sim, Anita, houve outros depois do Luiz Eduardo. Teria sido melhor estar até hoje casado com Maria Emília?
Seu olhar novamente me inunda e você me diz: não estou falando de Luiz Eduardo, Maria Emília ou seja lá quem for. Estou falando de Anita.
Então finalmente vejo meus limites e te digo: estamos em tempos diferentes. Não são velocidades diferentes. Nossos tempos são díspares. Não vou fazer uma sessão de psicanálise com você agora, mas não tenho condições afetivas de viver com você uma relação amorosa de companheirismo. Não que você seja mais evoluída do que eu ou que esteja mais preparada do que eu. Não me sinto disposto para isso.
Aguardo sua resposta.
Amo este nosso diálogo
Forte abraço.
Caio Marques
sexta-feira, 30 de abril de 2010
Brasília, 30 de abril de 2010
Fernando e Paulinho.
Digo que é possível a vivência de certa ausência de remetente e de destinatário – simultaneamente ou separadamente – tal como foi escrito. Digo também que essa ausência é uma vaga lembrança em mim. Hoje recordo de uma frase famosa muito presente em mim e que figura numa carta de Caio para Anita e noutra (que é igual e outra simultaneamente) de Alberto para Maria Cláudia. Ambas estão no blog http://albertotibaji.blogspot.com . Call me Ishmael. Após a lista de qualidades que Fernando me enviou (ou seria uma carta? Ou uma autobiografia dele? Ou uma biografia minha?), escrevi um texto que posso enviar depois, sobre o meu nome. Pode me chamar de Caio. Pode me chamar de Alberto. Pode me chamar de Tibaji. Pode me chamar de Junior.
Então, a vivência dessa ausência é possível, mas gosto de ter nome, gosto de me dirigir a alguém que tenha nome, ainda que tudo seja pleno de imaginação, ainda que o remetente no fundo seja outro, ainda que o destinatário mais apropriado para as palavras enunciadas não tenha sido nomeado ou não tenha nem mesmo nascido.
Beijos em vocês,
Alberto
Fernando e Paulinho.
Digo que é possível a vivência de certa ausência de remetente e de destinatário – simultaneamente ou separadamente – tal como foi escrito. Digo também que essa ausência é uma vaga lembrança em mim. Hoje recordo de uma frase famosa muito presente em mim e que figura numa carta de Caio para Anita e noutra (que é igual e outra simultaneamente) de Alberto para Maria Cláudia. Ambas estão no blog http://albertotibaji.blogspot.com . Call me Ishmael. Após a lista de qualidades que Fernando me enviou (ou seria uma carta? Ou uma autobiografia dele? Ou uma biografia minha?), escrevi um texto que posso enviar depois, sobre o meu nome. Pode me chamar de Caio. Pode me chamar de Alberto. Pode me chamar de Tibaji. Pode me chamar de Junior.
Então, a vivência dessa ausência é possível, mas gosto de ter nome, gosto de me dirigir a alguém que tenha nome, ainda que tudo seja pleno de imaginação, ainda que o remetente no fundo seja outro, ainda que o destinatário mais apropriado para as palavras enunciadas não tenha sido nomeado ou não tenha nem mesmo nascido.
Beijos em vocês,
Alberto
quinta-feira, 18 de março de 2010
Carta ao Élvio
Você correu para o abraço.
Foi você.
Talvez sim.
Querido Élvio.
Te escrevo esta carta, mesmo sem saber se você algum dia vai ler. Acho que acredito que ao traçá-la produzo um acontecimento que muda alguma coisa na vida. Ou talvez seja apenas a esperança de que, se não você, alguém algum dia lerá o que escrevo e poderá fruir estas palavras. Mas acho que não. Ter escrito será suficiente para mim. Disse que não sei se você lerá “estas mal traçadas linhas” porque posso não terminar esta missiva. Posso também terminá-la e não entregá-la. Por falta de ocasião, vergonha, medo ou por outro sentimento qualquer que me impeça de viver o momento de verdadeira exposição e todas as suas consequências. Mas quem sabe eu conseguirei chegar ao fim desta carta e “heroicamente” entregá-la. Você, por vergonha, medo ou qualquer outro sentimento que te impeça de receber um verdadeiro momento de expressão de afeto, ou apenas porque eu te entregarei esta carta em ocasião pouco apropriada, vai pegar o envelope, olhar nos meus olhos e dizer obrigado, vou ler mais tarde, com calma. Aí você vai abrir sua pasta, pegar o livro do David Byrne, guardar a carta e esquecê-la. Já posso ver no futuro, alguém da sua família, abrindo aquele livro do avô ou do tio avô, de uma época em que fazia sentido lutar por um mundo com menos carros e mais bicicletas e descobrir esta carta nunca lida. Quem pode, quem poderá dizer para quem esta carta está sendo escrita?
Mas o que eu quero é te falar da dificuldade de compreender o abraço. Há uns dez dias atrás, numa despedida, nos abraçamos com uma tal proximidade que desentendi o que é um abraço.
Os abraços, como as cartas, podem ser afetuosos, cheios de desejos, de solidariedade, formais, desajeitados, temerosos. Nosso abraço começou no afeto, passou pelo desejo, esbarrou no medo, desajeitou-se e finalmente firmou-se no acolhimento de si e do outro. Aprendi ali e naquele momento que um abraço pode ser abertura, encontro. Encontrei o Caio Marques que só existe com você. Encontrei o Élvio que só existe com o Caio Marques. E nos embalamos.
Lembrei-me do abraço daqueles dois. Lembra? De uma virilidade assustadora, cheia de raiva pela impossibilidade de viver aquele amor. De um contato violento, que causava medo diante da profundidade com que tinham se tocado. De uma beleza extrema, que sacia nossa ânsia de sintonia. Você dizia que era amor. Olívia dizia que era amizade. Eu dizia que era amor e amizade e que cada um a cada vez sentia seja amor seja amizade e que eles nunca se encontravam.
Quero que você me abrace mais vezes. Quero te abraçar mais vezes. Sentir a palma das tuas mãos nas minhas costas. Tocar as tuas costas com a palma das minhas mãos. Deixar que você me faça sentir uma parte de mim que não vejo. Te fazer sentir uma parte de você que você não vê. Porque em alguns trechos não somos visíveis, apenas táteis.
Um beijo.
Caio Marques
Foi você.
Talvez sim.
Querido Élvio.
Te escrevo esta carta, mesmo sem saber se você algum dia vai ler. Acho que acredito que ao traçá-la produzo um acontecimento que muda alguma coisa na vida. Ou talvez seja apenas a esperança de que, se não você, alguém algum dia lerá o que escrevo e poderá fruir estas palavras. Mas acho que não. Ter escrito será suficiente para mim. Disse que não sei se você lerá “estas mal traçadas linhas” porque posso não terminar esta missiva. Posso também terminá-la e não entregá-la. Por falta de ocasião, vergonha, medo ou por outro sentimento qualquer que me impeça de viver o momento de verdadeira exposição e todas as suas consequências. Mas quem sabe eu conseguirei chegar ao fim desta carta e “heroicamente” entregá-la. Você, por vergonha, medo ou qualquer outro sentimento que te impeça de receber um verdadeiro momento de expressão de afeto, ou apenas porque eu te entregarei esta carta em ocasião pouco apropriada, vai pegar o envelope, olhar nos meus olhos e dizer obrigado, vou ler mais tarde, com calma. Aí você vai abrir sua pasta, pegar o livro do David Byrne, guardar a carta e esquecê-la. Já posso ver no futuro, alguém da sua família, abrindo aquele livro do avô ou do tio avô, de uma época em que fazia sentido lutar por um mundo com menos carros e mais bicicletas e descobrir esta carta nunca lida. Quem pode, quem poderá dizer para quem esta carta está sendo escrita?
Mas o que eu quero é te falar da dificuldade de compreender o abraço. Há uns dez dias atrás, numa despedida, nos abraçamos com uma tal proximidade que desentendi o que é um abraço.
Os abraços, como as cartas, podem ser afetuosos, cheios de desejos, de solidariedade, formais, desajeitados, temerosos. Nosso abraço começou no afeto, passou pelo desejo, esbarrou no medo, desajeitou-se e finalmente firmou-se no acolhimento de si e do outro. Aprendi ali e naquele momento que um abraço pode ser abertura, encontro. Encontrei o Caio Marques que só existe com você. Encontrei o Élvio que só existe com o Caio Marques. E nos embalamos.
Lembrei-me do abraço daqueles dois. Lembra? De uma virilidade assustadora, cheia de raiva pela impossibilidade de viver aquele amor. De um contato violento, que causava medo diante da profundidade com que tinham se tocado. De uma beleza extrema, que sacia nossa ânsia de sintonia. Você dizia que era amor. Olívia dizia que era amizade. Eu dizia que era amor e amizade e que cada um a cada vez sentia seja amor seja amizade e que eles nunca se encontravam.
Quero que você me abrace mais vezes. Quero te abraçar mais vezes. Sentir a palma das tuas mãos nas minhas costas. Tocar as tuas costas com a palma das minhas mãos. Deixar que você me faça sentir uma parte de mim que não vejo. Te fazer sentir uma parte de você que você não vê. Porque em alguns trechos não somos visíveis, apenas táteis.
Um beijo.
Caio Marques
Querida Olívia.
Confesso. Você me preocupou hoje. Não resisti e, ao invés de preparar os documentos para a reunião de amanhã (você sabe que com freqüência deixo para fazer parte do trabalho em casa à noite), decidi te escrever. Você já sabe como as palavras valem preciosidades para mim.
Quero te me falar amizade amor e sensualidade. Sei que não tenho uma vida assim tão cheia de aventuras, nem uma vida longa o suficiente para dar conselhos. Uma vez, e te asseguro não foi a única, marquei um encontro cuja intenção era ter uma boa noite de sexo. Ao chegar na casa do rapaz, deparei-me com uma enorme quantidade de discos e livros. Minha paixão pelos livros me levou de imediato para as prateleiras. Ele era meio hippie e colocava seus livros dispostos em tábuas, sustentadas e separadas em cada ponta por tijolos. Próximo às estantes de tábuas, muitas almofadas pelo chão. Sentei ali e enquanto aguardava que ele me trouxesse uma cerveja, reparei na grande quantidade de livros de e sobre Walt Whitman. Quando ele voltou, com seu sorriso leve e envergonhado e perguntou se eu tinha dito água ou cerveja, perguntei-lhe se ele gostava de Whitman. Ele não me trouxe a água. Ele não me trouxe o álcool. Sentou ao meu lado, pegou o violão e depois de saber que gosto das poesias de Whitman, quis me mostrar a música que ele tinha feito para um trecho de poema. Falou da sua pesquisa e de como ele lia esses poemas. Falou de música. Fumou. Tirou a roupa. Não toda. Falou que gostava de escrever, que gostava de enigmas. Falou do vigor poético, do poder de transformação da poesia. Falou da relação entre música e poesia. Falou. Falou. Ouvi. Falei. Ele me ouviu. Lembrou da água ou da cerveja. Não deixei que ele levantasse do colchão. Me abraçou e me disse que não tinha problema se eu não quisesse transar. Me marcou o alívio que senti. Não transamos. Dormimos abraçados. Tivemos muitas outras noites de conversa.
Noutra época, não sei mais dizer se antes ou se depois do que acabo de contar, tinha uma colega de trabalho muito próxima. Éramos grandes amigos. Andávamos de mãos dadas, andávamos abraçados. Ela também já amara homens e mulheres. Numa tarde, na praia, na hora de nos despedirmos, nos beijamos. Depois disso, descobrimos que nos amávamos. Quando deitávamos juntos, deslizava meus dedos sobre seu corpo, podia ler sua pele. Eram tempos longos, de contagem duvidosa. Sua respiração, seus seios fartos, um osso mais saliente, uma curva sobressaltada, o cheiro do seu suor, seu peso. Tanto me excitava. Juntos sob o sol escaldante. Juntos na água. Juntos ao relento. Juntos sob o azul do céu, sobre a grama. Só nós.
Te conto isso porque gosto de contar estórias. Fatos, lembranças, fantasias, invencionices: quero te dizer que o importante é estar atento ao caminhar da estória. Às vezes, a atração pelo olhar resulta no carinho e às vezes a proximidade do carinho resulta na atração. Às vezes a gente marca um encontro cuja intenção é ter uma boa noite de sexo. E tem. Às vezes a gente marca um jantar cuja intenção é ter um bom papo. E tem! Às vezes a gente marca um encontro cuja intenção é ter uma boa noite de sexo. Tem a noite. Tem o sexo. E não é bom. Às vezes a gente marca um jantar cuja intenção é ter um bom papo. Tem a noite. Tem o jantar. E é ruim. Às vezes. Ou as vezes. Revés. Como saber se a gente sente tesão ou carinho? Estando próximo, estando atento. Sim, entendo o que você diz. Mas eu gosto dessa imprecisão. Bom é estar perto das pessoas de quem a gente gosta e deixar que o inesperado brote dessa proximidade. Escrito assim parece simples. E é. Difícil é a gente deixar de querer complicar. Isso é extremamente arriscado. Tanto o rapaz quanto a moça poderiam ter se zangado comigo...
Um abraço muito forte para você,
Caio Marques
Confesso. Você me preocupou hoje. Não resisti e, ao invés de preparar os documentos para a reunião de amanhã (você sabe que com freqüência deixo para fazer parte do trabalho em casa à noite), decidi te escrever. Você já sabe como as palavras valem preciosidades para mim.
Quero te me falar amizade amor e sensualidade. Sei que não tenho uma vida assim tão cheia de aventuras, nem uma vida longa o suficiente para dar conselhos. Uma vez, e te asseguro não foi a única, marquei um encontro cuja intenção era ter uma boa noite de sexo. Ao chegar na casa do rapaz, deparei-me com uma enorme quantidade de discos e livros. Minha paixão pelos livros me levou de imediato para as prateleiras. Ele era meio hippie e colocava seus livros dispostos em tábuas, sustentadas e separadas em cada ponta por tijolos. Próximo às estantes de tábuas, muitas almofadas pelo chão. Sentei ali e enquanto aguardava que ele me trouxesse uma cerveja, reparei na grande quantidade de livros de e sobre Walt Whitman. Quando ele voltou, com seu sorriso leve e envergonhado e perguntou se eu tinha dito água ou cerveja, perguntei-lhe se ele gostava de Whitman. Ele não me trouxe a água. Ele não me trouxe o álcool. Sentou ao meu lado, pegou o violão e depois de saber que gosto das poesias de Whitman, quis me mostrar a música que ele tinha feito para um trecho de poema. Falou da sua pesquisa e de como ele lia esses poemas. Falou de música. Fumou. Tirou a roupa. Não toda. Falou que gostava de escrever, que gostava de enigmas. Falou do vigor poético, do poder de transformação da poesia. Falou da relação entre música e poesia. Falou. Falou. Ouvi. Falei. Ele me ouviu. Lembrou da água ou da cerveja. Não deixei que ele levantasse do colchão. Me abraçou e me disse que não tinha problema se eu não quisesse transar. Me marcou o alívio que senti. Não transamos. Dormimos abraçados. Tivemos muitas outras noites de conversa.
Noutra época, não sei mais dizer se antes ou se depois do que acabo de contar, tinha uma colega de trabalho muito próxima. Éramos grandes amigos. Andávamos de mãos dadas, andávamos abraçados. Ela também já amara homens e mulheres. Numa tarde, na praia, na hora de nos despedirmos, nos beijamos. Depois disso, descobrimos que nos amávamos. Quando deitávamos juntos, deslizava meus dedos sobre seu corpo, podia ler sua pele. Eram tempos longos, de contagem duvidosa. Sua respiração, seus seios fartos, um osso mais saliente, uma curva sobressaltada, o cheiro do seu suor, seu peso. Tanto me excitava. Juntos sob o sol escaldante. Juntos na água. Juntos ao relento. Juntos sob o azul do céu, sobre a grama. Só nós.
Te conto isso porque gosto de contar estórias. Fatos, lembranças, fantasias, invencionices: quero te dizer que o importante é estar atento ao caminhar da estória. Às vezes, a atração pelo olhar resulta no carinho e às vezes a proximidade do carinho resulta na atração. Às vezes a gente marca um encontro cuja intenção é ter uma boa noite de sexo. E tem. Às vezes a gente marca um jantar cuja intenção é ter um bom papo. E tem! Às vezes a gente marca um encontro cuja intenção é ter uma boa noite de sexo. Tem a noite. Tem o sexo. E não é bom. Às vezes a gente marca um jantar cuja intenção é ter um bom papo. Tem a noite. Tem o jantar. E é ruim. Às vezes. Ou as vezes. Revés. Como saber se a gente sente tesão ou carinho? Estando próximo, estando atento. Sim, entendo o que você diz. Mas eu gosto dessa imprecisão. Bom é estar perto das pessoas de quem a gente gosta e deixar que o inesperado brote dessa proximidade. Escrito assim parece simples. E é. Difícil é a gente deixar de querer complicar. Isso é extremamente arriscado. Tanto o rapaz quanto a moça poderiam ter se zangado comigo...
Um abraço muito forte para você,
Caio Marques
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