Anita.
O que é o tempo? O que você perdeu por não fotografar o ipê? Os detalhes rajados das flores? Seu viço? Sua força? Sem a foto fica a lembrança que lentamente se esvai. Até sumir. A lembrança e o ipê. Com a foto o que você teria? O viço? Os detalhes rajados das flores? Sua força? O que a foto garante?
Então imagino o que teria acontecido caso eu não tivesse viajado para o norte e numa espécie de lampejo, me visse no espelho e se descortinassem meus limites. Mas esse é talvez o seu sonho escrito por mim nesta carta para você. Esta é a carta que você queria que eu escrevesse. Mas não tive esse lampejo. Não se descortinaram meus limites. Fui para o norte e, quando voltei, você havia partido. Então imagino: o que teria acontecido se você tivesse me esperado?
O que você ganhou por não fotografar o ipê? O que ganhamos por termos a relação que temos? Cada um dentro dos seus limites? Você, então, me olha com seu olhar cansado da minha dificuldade de ver meus próprios limites – e você já existe em mim, há uma Anita que não cessa de se remexer em mim – e me pergunto se isso não é fácil demais, se isso não é apenas retórica. Seria fácil – talvez até bom – se a cada opção que fazemos na vida estivéssemos sempre pensando em tudo o que ganhamos e jamais no que perdemos. Um modo que as meninas e moças de antigamente conheciam bem. Um modo Pollyana de ser. Talvez seja isso. Ou talvez seja apenas um “ça m’est égal” e eu seja outro Meursault. Um Meursault real.
Mas eu estaria mentindo se dissesse que não vivo assombrado pelos fantasmas de tudo aquilo que não vivi. Há sobretudo um: nunca te falei da paixão que senti por um colega de graduação chamado Luiz Eduardo. Sim, Anita, um homem. Luizé, como eu brincava, usava aliança de noivado, mas na faculdade todos sabíamos de sua preferência pelos homens. A aliança era um engodo para a família. Luizé tinha um companheiro de longa data, com quem dividia um apartamento. Lima, como ele se apresentou uma vez, era apaixonadamente tolerante. Luizé tinha, vez em quando, alguns namorados. Nunca tive coragem de dizer de modo explícito que o amava.
Num domingo, depois de apresentar Édipo rei, aproveitando que Lima estava viajando, Luiz Eduardo preparou seu banho e não abriu a água, só o gás.
Assim foi.
Fiquei durante anos assombrado pelo meu silêncio, pelo amor que não vivemos – no momento do velório, uma amiga em comum expressou sua incompreensão diante da dificuldade que sentíamos em dizer que nos amávamos. Não o fotografei. Não o beijei.
Como lidar com esses fantasmas? Teria sido feliz, caso tivesse vivido com Luiz Eduardo? E mais: o que significa meu amor pelos homens? Sim, Anita, houve outros depois do Luiz Eduardo. Teria sido melhor estar até hoje casado com Maria Emília?
Seu olhar novamente me inunda e você me diz: não estou falando de Luiz Eduardo, Maria Emília ou seja lá quem for. Estou falando de Anita.
Então finalmente vejo meus limites e te digo: estamos em tempos diferentes. Não são velocidades diferentes. Nossos tempos são díspares. Não vou fazer uma sessão de psicanálise com você agora, mas não tenho condições afetivas de viver com você uma relação amorosa de companheirismo. Não que você seja mais evoluída do que eu ou que esteja mais preparada do que eu. Não me sinto disposto para isso.
Aguardo sua resposta.
Amo este nosso diálogo
Forte abraço.
Caio Marques
Mostrando postagens com marcador Cartas para Anita. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cartas para Anita. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 8 de junho de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Carta antecipada
Querida Anita.
Call me Ishmael. É assim que começa.Você dá um nome. Como um demiurgo no domingo, você cria todas as coisas e, por princípio, principia por criar o criador. Foi assim que começou. Você deu um nome. A quem pertence este nome? A quem chama? A quem é chamado? Pode me chamar de Caio. É assim que começa. Você dá um nome. Você se dá um nome. Caio, Caio Marques. Marque esse nome. Quem escolheu esse nome? Marque, remarque. Começo a responder antes mesmo que você me envie sua carta.
Agora você vem me falar de separação? Como assim? Então antes havia vida em comum! Surpreendo-me com tal descoberta. Delicio-me. Agora que estamos afastados... E há correspondência... Você vem me falar – ou vem me pedir? – separação? Seria possível lembrar de como tudo começou? Não sou bom de memória. Não quero ser. Será que escrevo porque não sou bom de memória? Não escrevo para guardar memória, mas justo porque não guardo memória, dissemino.
O que eu deveria dizer agora? Que não posso aceitar? Que quando um não quer dois não brigam? Que nunca houve vida em comum e que você imaginou tudo? A vida em comum foi fruto da sua imaginação? Ou devo te dizer que, para o bem ou para o mal, havia e sempre haverá vida em comum? Começo a responder antes mesmo que você envie sua carta. Acho que tenho uma espécie de incontinência imaginária. Na verdade, você não vai me escrever sobre isso. De onde tirei isso tudo? A imaginação farta. Fardo da imaginação. Fado? Falta? Medo que você me diga que não quer mais saber disso, que a partir de agora, tudo vai ser diferente, cada um no seu canto.
Desculpe a brincadeira.
Talvez eu tenha estragado tudo. Não seria de se estranhar.
Como os nomes, a quem pertencem estas palavras?
Do seu,
Caio
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Resposta à Carta de Anita XI
Querida Anita.
Li sua carta. Pensei em quando saí desta cidade. Você diria que eu te deixei? Que te abandonei? Não pedi que você me esperasse. Não sabia se queria que você me esperasse. Voltei. Que Caio voltou? De repente a descoberta que você partiu. Não me esperou. Então eu queria que você me esperasse? Foi esse o Caio que havia partido? Me senti abandonado? Não consigo identificar nada de significativo na viagem ao Norte que justifique essa inesperada desilusão. O que aconteceria se você estivesse aqui? Eu correria para o abraço?
Sou o desencontro de mim mesmo. E sou tão desencontrado que mesmo o me saber desencontrado não desbrava o caminho para o despertar de quem eu seria.
Dizem que há lugares em que se vê o encontro do céu com o mar, em que se vê o encontro de céu e terra e que chamam de horizonte. Nunca vi essa linha, ainda que imaginária. Olho para os lados e vejo montanhas, casas, árvores, mas jamais esse encontro. Nem mesmo consigo imaginá-lo.
Anita, não sei se é demais, mas peço que imagine o que é um homem sem horizontes. Esse homem sou eu. Não, não caminho a esmo. Isso não. Só não sigo mais tentando alcançar esse encontro imaginário. Será que perdi o rumo nessa minha viagem ao Norte? Não ria. Não é leviandade da minha parte. Não perdi o prumo.
Antes da minha partida, sentia que você de certa forma esperava que eu compreendesse o constrangimento que eu te causava ao falar de Maria Emília. Mas eu justificava minha atitude, dizendo para mim mesmo que, se você me amava, precisava me ouvir falar de Maria Emília.
Desculpas. Peço-as agora. Peço desculpas. Sei que por carta é mais fácil porque estamos distantes e eu não verei seu olhar e sua reação, seja ela qual for, a esse pedido. Mas por carta fica escrito, e as janelas da escrita não se abrem para os mesmos lugares que as janelas da voz.
Anita – esta é a terceira vez que te interpelo nesta carta –, como disse numa carta ao Élvio, frequentemente escrevo cartas sem saber para quem são, sem saber para que escrevo. Esta carta é para você, esteja você onde estiver e ela é para te pedir desculpas – não por ter sido incompetente para te amar –, é para te pedir desculpas pela tolice de tantas de minhas certezas.
Um abraço muito afetuoso.
Do SEU
Caio.
Li sua carta. Pensei em quando saí desta cidade. Você diria que eu te deixei? Que te abandonei? Não pedi que você me esperasse. Não sabia se queria que você me esperasse. Voltei. Que Caio voltou? De repente a descoberta que você partiu. Não me esperou. Então eu queria que você me esperasse? Foi esse o Caio que havia partido? Me senti abandonado? Não consigo identificar nada de significativo na viagem ao Norte que justifique essa inesperada desilusão. O que aconteceria se você estivesse aqui? Eu correria para o abraço?
Sou o desencontro de mim mesmo. E sou tão desencontrado que mesmo o me saber desencontrado não desbrava o caminho para o despertar de quem eu seria.
Dizem que há lugares em que se vê o encontro do céu com o mar, em que se vê o encontro de céu e terra e que chamam de horizonte. Nunca vi essa linha, ainda que imaginária. Olho para os lados e vejo montanhas, casas, árvores, mas jamais esse encontro. Nem mesmo consigo imaginá-lo.
Anita, não sei se é demais, mas peço que imagine o que é um homem sem horizontes. Esse homem sou eu. Não, não caminho a esmo. Isso não. Só não sigo mais tentando alcançar esse encontro imaginário. Será que perdi o rumo nessa minha viagem ao Norte? Não ria. Não é leviandade da minha parte. Não perdi o prumo.
Antes da minha partida, sentia que você de certa forma esperava que eu compreendesse o constrangimento que eu te causava ao falar de Maria Emília. Mas eu justificava minha atitude, dizendo para mim mesmo que, se você me amava, precisava me ouvir falar de Maria Emília.
Desculpas. Peço-as agora. Peço desculpas. Sei que por carta é mais fácil porque estamos distantes e eu não verei seu olhar e sua reação, seja ela qual for, a esse pedido. Mas por carta fica escrito, e as janelas da escrita não se abrem para os mesmos lugares que as janelas da voz.
Anita – esta é a terceira vez que te interpelo nesta carta –, como disse numa carta ao Élvio, frequentemente escrevo cartas sem saber para quem são, sem saber para que escrevo. Esta carta é para você, esteja você onde estiver e ela é para te pedir desculpas – não por ter sido incompetente para te amar –, é para te pedir desculpas pela tolice de tantas de minhas certezas.
Um abraço muito afetuoso.
Do SEU
Caio.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Resposta à Carta de Anita X
Querida Anita.
De volta ao início. Cartas antigas amontoadas, jogadas por debaixo da porta. Contas a acertar. Com quem? Talvez eu esteja sempre errado.
Ontem você rumou para seu novo destino. Ou terá sido hoje? Não posso dizer que você me deixou.
Muitas saudades. E descubro que podemos sentir falta daquilo que nunca tivemos...
Talvez a distância me permita certa intimidade que a proximidade dificulta. Talvez eu não tivesse a coragem de dizer pessoalmente o que te digo em cartas.
Não lamento nem festejo a impossibilidade de nosso amor. Constato.
Impossibilidade? Inexistência? Será que nos amamos e não sabemos? Será que não sabemos nos amar? Será que não nos amamos, mas imaginamos um amor impossível entre nós para amarmos esse amor e assim nos contentarmos com nossa incompetência para amar?
Não sei se devo pedir desculpas. Não sei se errei. Releio suas cartas. Se um desconhecido um dia lesse sua primeira carta para mim e lesse esta última não conseguiria imaginar que você se dirige a uma única e mesma pessoa.
Será que vivemos - nós dois - sempre no mundo da imaginação? Suas palavras me alimentam. Será que confundimos o que sentíamos? Será que erramos – ou errei – ao me aproximar corporalmente de você?
Que venham suas letras, que venham suas imagens. Se fui a brisa desses seus dias quentes, você foi o alento desses meus dias tépidos.
Abraço – se me permite – muito afetuoso
do SEU
Caio
De volta ao início. Cartas antigas amontoadas, jogadas por debaixo da porta. Contas a acertar. Com quem? Talvez eu esteja sempre errado.
Ontem você rumou para seu novo destino. Ou terá sido hoje? Não posso dizer que você me deixou.
Muitas saudades. E descubro que podemos sentir falta daquilo que nunca tivemos...
Talvez a distância me permita certa intimidade que a proximidade dificulta. Talvez eu não tivesse a coragem de dizer pessoalmente o que te digo em cartas.
Não lamento nem festejo a impossibilidade de nosso amor. Constato.
Impossibilidade? Inexistência? Será que nos amamos e não sabemos? Será que não sabemos nos amar? Será que não nos amamos, mas imaginamos um amor impossível entre nós para amarmos esse amor e assim nos contentarmos com nossa incompetência para amar?
Não sei se devo pedir desculpas. Não sei se errei. Releio suas cartas. Se um desconhecido um dia lesse sua primeira carta para mim e lesse esta última não conseguiria imaginar que você se dirige a uma única e mesma pessoa.
Será que vivemos - nós dois - sempre no mundo da imaginação? Suas palavras me alimentam. Será que confundimos o que sentíamos? Será que erramos – ou errei – ao me aproximar corporalmente de você?
Que venham suas letras, que venham suas imagens. Se fui a brisa desses seus dias quentes, você foi o alento desses meus dias tépidos.
Abraço – se me permite – muito afetuoso
do SEU
Caio
segunda-feira, 1 de março de 2010
Carta para Anita: visita surpresa
Anita querida,
preciso de você!
Imagino você batendo na minha porta de surpresa. Abro e o desejo de te abraçar é tão grande quanto o desejo de prolongar a surpresa de sua chegada, prolongar a sensação antes do abraço. Você entra e se dirige ao meu pomar, onde está minha cachorra. Deleito-me com a visão do seu rosto e com sua reação às lambidas dela na sua mão. Me encanto com esse carinho. Finalmente, você vem na minha direção e me abraça. Um abraço já destituído da surpresa inicial e do prazer de tê-la onde moro. Um abraço quase formal. E talvez eu me entristecesse. Mais provável que não. Você não para de olhar ao seu redor. Não sei se encantada. Com certeza curiosa. Como se dissesse que, apesar de todas as descrições que fiz da minha casa, você estava surpresa, não imaginara desse jeito. E desanda a me fazer perguntas sobre a casa, sobre os objetos, sobre as plantas, sobre a cachorra. Eu me sentiria, em algum recanto do meu ser, deixado de lado, à margem do seu devaneio. Para garantir sua presença, te ofereço uma água, te ofereço um vinho e pergunto o que te levou a vir à minha casa. Você suspira, senta numa poltrona da minha sala. Será que você suspira com frequência? O início da sua resposta é interrompido pelo gosto agradável do vinho. E você diria, brincando, que o vinho faz a ocasião. Eu rio. Sei, de certa forma, o que você quer dizer com isso. Rio das outras possibilidades que a frase desperta em mim. Rio da sua agilidade. Rio porque você me responde e não me responde. Você termina de beber o cálice de vinho, levanta-se. Imagino que você vai até a estante de livros. Você nem mesmo olha na direção dos livros. Olha para as conchas, algumas esculturas de barro que meus filhos fizeram quando eram pequenos. Pega uma pequena escultura com forma de cabeça humana e observa uma parte quebrada.
Eis-me imaginando como você seria...
Talvez não seja isso que se espera de uma carta. Talvez eu devesse falar de mim, expressar-me. Será que não fiz isso?
A solidão é o sentimento mais forte em mim. Tanto grito em mim que quero encontrar alguém quanto transpiro visivelmente a força da solidão. Perdoe-me por falar de modo assim tão estúpido, mas é como se, em alguns momentos, eu transpirasse a solidão da morte. Da morte? Por que da morte? Da vida, isso sim! Nem sei bem porque falei sobre isso. Acho que porque nos últimos tempos o lugar que mais conheço são os quartos de hotel. Nos falamos de novo? Espero que em breve.
Abraço,
Caio Marques
Assinar:
Postagens (Atom)