segunda-feira, 20 de junho de 2011

Zona da intimidade



Espartilho não localizado
Sobre a cama
Cuecas e meias não identificadas
Pelo quarto
Sob a cama
Incógnita
Armário presente
De portas escancaradas
A luz persistente do abajur
Desafia
A inundação do sol
No chão
A escova de dentes locupleta-se
Com o sabonete
Preservativos duvidosos
Marcam
O livro sobre Klee
Janela aberta
Uma das asas
Desaparecida
Cinto numa posição
Sapatos noutra
Mais além um nó
De gravata
Zona
De nexos
eu

Intimidade

Anita [?]
Veja o poema que publiquei.
AT

Fim de uma farsa

Querida Anita [Anita?],
Há quanto tempo longe da tua companhia... Fazes-me falta!
Perdão pela minha traição. Peço. Acabo de pedir. Creio que antes mesmo de pedir já fui perdoado pela sua resposta. Imagino que o fato de ter me respondido, já é, de algum modo, um certo perdão. Doce ilusão? Não creio.
Não me arrependo de ter tomado o lugar de Caio, de ter me apropriado do nome dele. Agora vejo que me sentia sozinho e que fui provavelmente tão Caio quanto o próprio Caio.
Ando assombrado. Escrevi muito nos últimos tempos, mas não conseguia me dirigir a você. Logo a você que me lê e me responde. Burrice. Talvez precisasse mesmo era terminar a farsa, o teatro, a encenação, o jogo ou como você quiser chamar esse período de nossa relação. E você, corajosamente, dolorosamente tira a máscara. [Tira?]
Você falou tanto de máscaras e de mentiras que preciso te enviar o que escrevi outro dia a respeito de algo que se passou há muitos e muitos dias.
Não me lembro bem porque me exaltei. Aliás, não era difícil eu me exaltar. O carinho dele era no sentido de eu não pôr a perder uma bela amizade. Na época, eu acreditava nesses encontros mágicos. Há tanto tempo éramos próximos e eu não percebera que ele estava interessado em mim. Se percebi, disfarcei tão bem que hoje em dia não me lembro. O que ele queria mesmo era poder colocar a mão na minha perna. Ver o que eu sentia. Naquela noite, ele sentiu na mão dele o que eu sentia. Ali, no restaurante, por baixo da toalha da mesa, enquanto conversávamos com nossos amigos. Eu também senti na minha mão o que ele sentia.
Voltamos a pé para casa.
Para ele, nosso amor era imperdoável.
Eu nunca soube o quanto ele mentia. Mentia tanto que eu já não sabia se o desejo de esconder o nosso amor também era falso. Nas minhas fantasias, imaginava ele rindo de mim porque eu acreditava que os outros não sabiam que ele era gay. Depois comecei a achar que ele mentia tanto que não conseguia perceber que mesmo dizendo para os outros que era gay, ele mentia. Não porque não fosse gay, mas porque ainda não sabia quem era.
Melhor. Ele mentia com tanta propriedade que era justo quando mentia que falava de modo mais verdadeiro. Assim, não era quando estava com os outros que ele falava a verdade e sim quando estava comigo e mentia. Porque a verdade dele não era um conteúdo qualquer e sim o próprio ato de mentir.
Foi nessa mentira que vivemos alguns bons meses. E nisso não éramos exceção. Não chegávamos a ser uma regra, mas éramos como grande parte dos homens que gostam de homens.
De tudo, ficou tatuada na minha coxa aquela pressão. Nenhum de nossos abraços, nenhum de nossos beijos, nenhuma de nossas noites de sexo, nenhum gozo me marcou mais do que a pressão de sua mão direita sobre a minha coxa esquerda.
Às vezes acho que fui infeliz e que não é rara a minúcia indelével.
Mas isso foi há muito tempo. E nós? Pergunto-me se menti tanto assim para você. Eu que já vi você totalmente nua, assim, despreocupadamente desejando estar despida diante de mim. Mas como a vida assemelha-se a uma imagem de Escher, digo que talvez você tenha despreocupadamente realizado o que eu desejava ardentemente.
E assim vagamos. Estarmos nus, um diante do outro. Talvez isso não seja possível. Você deseja estar com Caio e eu desejo um outro homem. Talvez. Quase sempre  e sempre quase.
E assim vislumbro que o mais importante é nos desnudarmos. Jamais somos inteiramente aquilo que somos. Sempre sobra e falta.
Cai o rosto, a roupa, a máscara. Cai. Não sou mais Caio. Não sou, mas caio.
De tudo o que se passa entre nós, guardo a sua confiança. Suas palavras, seu carinho, sua beleza ficam; comigo segue apenas a sua confiança.
Venha me ver aonde eu sou o que sobra e o que falta de mim. Venha me ver aqui, um pouco ao sul, alto, perto do céu. E você vai descobrir que já me conhecia. E você vai descobrir que ainda falta muito para me descobrir.
Abraço do homem que te ama.
Pode me chamar de Alberto Tibaji.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Querida Anita

Confesso, Anita.
Sua última carta me desarrumou. Algo me dizia que você desconfiava da minha traição. Confesso.
Tenho roubado incessantemente todas as cartas que você envia para Caio. Tenho me apropriado incessantemente do nome dele. Sem que ninguém soubesse, passei a escrever para você e para outras pessoas utilizando esse nome. Sentia que você dizia coisas para me testar, para ver se eu abandonava o jogo. Mas não pretendo abandonar o jogo. Me perturba sua insistência nesse amor. Sua última carta me alegrou. Caio não merece seu amor. Quantas cartas inicialmente você escreveu e às quais ele jamais respondeu? Ele permaneceria mudo, não fosse eu. Será que você sabe quem eu sou? Creio que não. Tenho meus motivos para crer nisso. Não tenho mais como abandonar esse nome. Eu também sou Caio Marques. E nenhum de nós é mais verdadeiro que o outro. Eu te traí. Eu ainda te traio., mesmo confessando minha traição costumeira. Ou antes, você acha que eu sou um traidor. Para mim, não te contar o que fiz não significa traição, significa que aquele não era o momento para você saber quem eu realmente sou. Por que você não comentou nada quando eu confessei, por meio de Caio, como se eu fosse Caio, que já tinha também namorado homens? Não sei se fiz isso apenas para destruir a imagem idealizada que você tinha dele. A traição pressupõe um pacto anterior e a quebra desse pacto. Eu não te traí. Nosso pacto, por mais déjà vu que isso seja, faz-se em cartas. E nossas cartas são mapas que desenhamos para traçarmos nossas vidas. Não me  risque das suas cartas. Te amo assim. Por escrito. Inteiramente seu,
Caio Marques.
PS: sobre o ipê te escrevo depois.

domingo, 12 de setembro de 2010

De volta aos ipês

Querida Anita

Saudades. Guardei durante alguns dias comigo em minha bolsa minha máquina fotográfica. Sabia que dia desses flagraria a beleza amarela dessas árvores em meio ao azul do inverno. Essas árvores: os ipês. São para você.



Os momentos não são efêmeros. Não acredito na perda. Ingenuidade. Imaturidade talvez. Dois dias atrás, me recusei a brindar aos encontros e às despedidas. Brindei somente aos encontros.

Em que medida o ipê na foto que fiz é diferente do ipê que você viu meses atrás? O ipê está aqui em sua plenitude.

Te escrevo para dizer que acredito nos encontros. Talvez você esteja acompanhada daqueles olhos que te miraram tão intensamente. Às vezes me pergunto se erro por estar longe de você. E a pergunta sempre traz a resposta de que nosso encontro fulgurou como o ipê. Manter o encontro por mais tempo do que ele poderia suportar seria deixá-lo num estado vegetativo. E queremos, ambos, o fulgor. Um fulgor que não rima com paixão. Não nesse momento. E esse fulgor nos transporta para um tempo outro e um espaço outro.

A cada dia que passa, mais pessoas se acomodam e buscam o acúmulo: de bens, de valores, de afeto. Busco a intensidade, sobretudo no que ela tem de diverso da quantidade. E assim soa como estupidez, deixar de lado o que se tem de bom para buscar algo de ainda melhor.

Divago.

Um beijo carinhoso do sempre seu

Caio Marques

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ao Raul

Há em mim uma forte necessidade da letra. A vida ativa um espectro de palavras.
Adoro cartas. São para mim, neste momento, a possibilidade de falar para alguém que tem um nome, mas, ao mesmo tempo, para todo e qualquer um que venha a ler estas palavras.
Começo. Na despedida, já estou vestido, e você pega a manga esquerda da minha camisa. Abotoa atentamente meu punho. Busca a outra manga – haveria desejo seu de outro punho a ser abotoado?
Não há.
Leio isso: manifestação de carinho da sua parte, desejo de me ver arrumado, bonito. Detalhe de suma importância. Sim, foi isso que li. Você também aprecia os detalhes, são de suma importância. Vi, então, você, atento, lendo as linhas da mão de uma folha. Vi você extasiado com o sopro da brisa – e me reiterava, não é a brisa, é o sopro – àquela hora da manhã quando a janela do quarto e a porta da cozinha estavam abertas. Vi você absorto, tentando se aproximar da sensação do peso da caneta sobre o papel e do peso da sombra sobre a parede.
Assim foi nossa noite. Colorida pela balbúrdia do tato. E os nervos e músculos ativados do seu corpo rescendiam um aroma constante e rico. As palavras, o queixo, o peito, a axila, e também a ponta dos dedos, as costas, uma dobra, uma pinta, tudo corpo. O sexo também.
Certa vez certo poeta me disse que tratava as palavras para que fossem um lago de superfície cristalina. Assim, o leitor veria toda palavra em sua profundidade. Não lembro bem se foi um escritor, mas me disse cuido da


palavra bruta
sem qualidades
sem carregamentos
desprovida de autonomia

palavra bruta
seus resíduos
suas contaminações
arranhões e cicatrizes de todo tipo
rastos de seu atrito com a realidade
tudo são pertencimentos

sou a minha palavra bruta


e um dia serei quem digo ser
ainda que eu seja
hoje
este que digo ser
um dia
amanhã
minha palavra bruta correrá em minhas artérias
irrigará todo meu corpo
amanhã
quando acordar
uma preposição correrá entre os dedos das mãos e dos pés
artigos em meus ouvidos
nas pontas dos dedos vibrarão substantivos abstratos
e meu corpo terá sido palavra
e minha palavra terá sido corpo.

Abraço forte
do seu
Caio

terça-feira, 8 de junho de 2010

Resposta à Carta de Anita sobre os ipês

Anita.

O que é o tempo? O que você perdeu por não fotografar o ipê? Os detalhes rajados das flores? Seu viço? Sua força? Sem a foto fica a lembrança que lentamente se esvai. Até sumir. A lembrança e o ipê. Com a foto o que você teria? O viço? Os detalhes rajados das flores? Sua força? O que a foto garante?


Então imagino o que teria acontecido caso eu não tivesse viajado para o norte e numa espécie de lampejo, me visse no espelho e se descortinassem meus limites. Mas esse é talvez o seu sonho escrito por mim nesta carta para você. Esta é a carta que você queria que eu escrevesse. Mas não tive esse lampejo. Não se descortinaram meus limites. Fui para o norte e, quando voltei, você havia partido. Então imagino: o que teria acontecido se você tivesse me esperado?


O que você ganhou por não fotografar o ipê? O que ganhamos por termos a relação que temos? Cada um dentro dos seus limites? Você, então, me olha com seu olhar cansado da minha dificuldade de ver meus próprios limites – e você já existe em mim, há uma Anita que não cessa de se remexer em mim – e me pergunto se isso não é fácil demais, se isso não é apenas retórica. Seria fácil – talvez até bom – se a cada opção que fazemos na vida estivéssemos sempre pensando em tudo o que ganhamos e jamais no que perdemos. Um modo que as meninas e moças de antigamente conheciam bem. Um modo Pollyana de ser. Talvez seja isso. Ou talvez seja apenas um “ça m’est égal” e eu seja outro Meursault. Um Meursault real.


Mas eu estaria mentindo se dissesse que não vivo assombrado pelos fantasmas de tudo aquilo que não vivi. Há sobretudo um: nunca te falei da paixão que senti por um colega de graduação chamado Luiz Eduardo. Sim, Anita, um homem. Luizé, como eu brincava, usava aliança de noivado, mas na faculdade todos sabíamos de sua preferência pelos homens. A aliança era um engodo para a família. Luizé tinha um companheiro de longa data, com quem dividia um apartamento. Lima, como ele se apresentou uma vez, era apaixonadamente tolerante. Luizé tinha, vez em quando, alguns namorados. Nunca tive coragem de dizer de modo explícito que o amava.


Num domingo, depois de apresentar Édipo rei, aproveitando que Lima estava viajando, Luiz Eduardo preparou seu banho e não abriu a água, só o gás.


Assim foi.


Fiquei durante anos assombrado pelo meu silêncio, pelo amor que não vivemos – no momento do velório, uma amiga em comum expressou sua incompreensão diante da dificuldade que sentíamos em dizer que nos amávamos. Não o fotografei. Não o beijei.


Como lidar com esses fantasmas? Teria sido feliz, caso tivesse vivido com Luiz Eduardo? E mais: o que significa meu amor pelos homens? Sim, Anita, houve outros depois do Luiz Eduardo. Teria sido melhor estar até hoje casado com Maria Emília?


Seu olhar novamente me inunda e você me diz: não estou falando de Luiz Eduardo, Maria Emília ou seja lá quem for. Estou falando de Anita.


Então finalmente vejo meus limites e te digo: estamos em tempos diferentes. Não são velocidades diferentes. Nossos tempos são díspares. Não vou fazer uma sessão de psicanálise com você agora, mas não tenho condições afetivas de viver com você uma relação amorosa de companheirismo. Não que você seja mais evoluída do que eu ou que esteja mais preparada do que eu. Não me sinto disposto para isso.


Aguardo sua resposta.


Amo este nosso diálogo


Forte abraço.


Caio Marques