domingo, 21 de agosto de 2011

Querida Anita


“O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim

Anita, sua carta – novamente – me desarrumou. Você me lembrou Maria Emília. E me vem: quem é você? E retorna maritimamente: quem sou? Quem sou eu para causar tantos transtornos? E você, quem é você que ao meu lado murcha e ao longe desabrocha?
E te agradeço porque me chamas Caio, mesmo sabendo que este incerto nome não é tudo o que sou. Afianço que na minha lápide qualquer nome será um equívoco. A ausência de um também.
Serei rude. Você veio me ver, compartilhamos o leito, a comida, a paisagem. E o que eu via era a Anita de sempre: maravilhada a cada sabor, cada carinho, cada cor. Mas essa não era você. Será isso?
Serei rude. Eu te faço mal? Mas se ambos confessamos nossas traições... Se ambos tiramos as máscaras e não vimos nossos rostos?...
Eu não te faço mal. Você ama alguém que não existe, daí quando você está próxima, aquele que existe te desagrada.
Nossa vida precisa restringir-se a essa eterna troca de cartas.
É assim que te amo.
Caio

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Resposta ao reencontro

Querido Pedro.
Devo confessar que me assustei com sua vinda. Também me irritei. Num período tão curto, pessoas tão díspares me visitaram: você, Anita e Cecília. Seria pedir demais que eu permanecesse ileso.
E você chegou a pensar que eu teria te esquecido...
Falando nisso, faço minhas as suas palavras. Ou quase. Sim, me casei. Você sabe. Tenho dois filhos maravilhosos. Você também sabe... E me casei de um jeito convencional, devo dizer. Me casei com uma mulher, Maria Emília. Ah, você já sabe... Quem diria, meu amigo, eu, que também achava que você seria o único homem da minha vida, me casando com, nada mais nada menos, uma mulher. Aprendi que na vida, nossa orientação é nosso desejo, qualquer que seja o sexo.
Devo confessar que não consegui dormir depois de nossa ida à festa.
Também devo confessar que me assustei com sua reação. Nossa distância geográfica, mensurável em quilômetros, me impede de conversar com você pessoalmente. Mas não quero deixar isso para depois.
Explico agora com calma. Refiro-me ao seu espanto com relação à minha declaração de amor. Mas é fundamental que você entenda que amo os detalhes. Não são as coisas grandiosas que me enchem os olhos, mas as minúcias.
Olha para você ver. Cheguei na festa com a preocupação de resgatar o meu saca-rolhas (isso ainda tem hífen?). Você muito rapidamente encontrou-o e colocou-o no bolso da sua blusa de frio. E ele lá ficou, até a hora de sairmos. Um saca-rolhas. Percebe? Para além da demonstração de cuidado. Você guardou com você, perto do seu corpo, aquilo que permite a saída daquilo que retenho, aquilo que permite o fluxo. Fluxo de bebida similar ao sangue, líquido de sabor forte, embebido – se é que isso é possível – da herança paterna, você sabe. E você, sabe-se lá por que razões, depois de desobstruir meus afetos, repito, guardou junto de seu corpo, aquilo que me permitiria desimpedir novos afetos. E mo devolveu. Ou melhor: guardou-o no porta-luvas (inferno de reforma ortográfica!) do meu carro, como que dizendo: cabe a você, Caio, decidir agora o que fazer.
Mais uma coisa. Ainda na festa, quando eu disse que eu precisava parar de beber, você passou a vigiar minha sede. E pediu que eu parasse de beber. Não parei. Você carinhosamente aceitou que eu terminasse meu último copo. Depois disso, se me ofereciam algo, você recusava por mim.
Uma última coisa. O aconchego que você me fez sentir num momento de dor extrema, ainda na festa. Revelei para você uma dor profunda que guardo e que jamais dividi com ninguém da minha família e com nenhum amigo, por mais íntimo que seja. Aliás, peço, se não for de grande monta, que jamais fale sobre isso com ninguém. Nem comigo mesmo. Não tenho condições de lidar com essa dor. O abismo é largo demais e eu não tenho habilidade para saltar para o outro lado.
O saca-rolhas, a bebida e o abraço. Isso reacendeu em mim o que senti outrora por você.
Mas você fugiu. Refugiou-se de mim. E queria, por exemplo, que eu dissesse que amava em você o seu corpo: os olhos, os braços, o sexo, os pés ou o rosto. Ou que amava sua coragem, sua franqueza, sua vitalidade. Queria que eu amasse não um gesto, mas a mão que o realizava, não um olhar, mas uma decisão.
Nada disso me seduziu.
Você me encanta pelo ínfimo.
Sabe que não acredito nos pedidos. Não pedirei que você volte. Não pedirei que me ame.
Imagino como você lê essas atitudes...
Mas digo: quis você. Te quero novamente. Quero você ao meu lado, ainda que separado por quilômetros.
Teu,
Caio.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Evandro,

um susto. Rápido quanto. Casual. E eu estava sentado à sua frente na mesa do bar. Ah, verdade, havia outro homem ao seu lado. Eu desinteressado. Claro, você não vai acreditar. Fiquei confuso com tudo o que aconteceu. Acho que sou meio burro em relação ao amor e ao sexo. Jocoso, me pediu em casamento. Nos conhecíamos há alguns meses, mas não tínhamos intimidade alguma. E insistiu. E jocoso. Constrangi-me. Ou foi você que me constrangeu? Sei não. E perdi-me. Até que em sua confissão, a brincadeira rimou verdadeira. E rápido minha perna estava entre suas pernas e me fez carinho e bebeu e me beijou.
E então? Na minha, então. Você não contou os degraus. Não lembrou dos compromissos da manhã seguinte. Não percebeu aonde deixou sua chave, não me esperou. Gozou do prazer de estar na minha casa. Tudo rápido. Apenas dois ou três lampejos de hesitação. Não precisou me convencer de irmos para sua casa.
Recolhemos as roupas. Nos agasalhamos. Você zeloso da ordem. Com medo da punição. Talvez certo da necessidade da ordem. Sem capacete, não fui atrás de você. Te segui. Na sua casa, então.
Na sala, nos quartos, na cozinha, tudo estava perto do fim. Pilhas de caixas, de sacos e de móveis. Etiquetas carregadas de estórias – o seu nome e o dele – diziam o destino de cada caixa, saco e móvel. Nossa noite foi bela, no meio da minha mudança e em meio à sua desordem. De manhã, depois do café, a preguiça e o carinho.
Hoje, passado tempo, em minha casa, me pergunto para quem ficou a toalha de rosto com o nome bordado de cada um de vocês. Hoje, passado tempo, em minha casa, me pergunto que medida tem cada uma das rimas da confissão. Hoje, passado tempo, em minha casa, pelos sentidos dessa noite que foi nossa, me pergunto.
Todo seu,
Caio

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Zona da intimidade



Espartilho não localizado
Sobre a cama
Cuecas e meias não identificadas
Pelo quarto
Sob a cama
Incógnita
Armário presente
De portas escancaradas
A luz persistente do abajur
Desafia
A inundação do sol
No chão
A escova de dentes locupleta-se
Com o sabonete
Preservativos duvidosos
Marcam
O livro sobre Klee
Janela aberta
Uma das asas
Desaparecida
Cinto numa posição
Sapatos noutra
Mais além um nó
De gravata
Zona
De nexos
eu

Intimidade

Anita [?]
Veja o poema que publiquei.
AT

Fim de uma farsa

Querida Anita [Anita?],
Há quanto tempo longe da tua companhia... Fazes-me falta!
Perdão pela minha traição. Peço. Acabo de pedir. Creio que antes mesmo de pedir já fui perdoado pela sua resposta. Imagino que o fato de ter me respondido, já é, de algum modo, um certo perdão. Doce ilusão? Não creio.
Não me arrependo de ter tomado o lugar de Caio, de ter me apropriado do nome dele. Agora vejo que me sentia sozinho e que fui provavelmente tão Caio quanto o próprio Caio.
Ando assombrado. Escrevi muito nos últimos tempos, mas não conseguia me dirigir a você. Logo a você que me lê e me responde. Burrice. Talvez precisasse mesmo era terminar a farsa, o teatro, a encenação, o jogo ou como você quiser chamar esse período de nossa relação. E você, corajosamente, dolorosamente tira a máscara. [Tira?]
Você falou tanto de máscaras e de mentiras que preciso te enviar o que escrevi outro dia a respeito de algo que se passou há muitos e muitos dias.
Não me lembro bem porque me exaltei. Aliás, não era difícil eu me exaltar. O carinho dele era no sentido de eu não pôr a perder uma bela amizade. Na época, eu acreditava nesses encontros mágicos. Há tanto tempo éramos próximos e eu não percebera que ele estava interessado em mim. Se percebi, disfarcei tão bem que hoje em dia não me lembro. O que ele queria mesmo era poder colocar a mão na minha perna. Ver o que eu sentia. Naquela noite, ele sentiu na mão dele o que eu sentia. Ali, no restaurante, por baixo da toalha da mesa, enquanto conversávamos com nossos amigos. Eu também senti na minha mão o que ele sentia.
Voltamos a pé para casa.
Para ele, nosso amor era imperdoável.
Eu nunca soube o quanto ele mentia. Mentia tanto que eu já não sabia se o desejo de esconder o nosso amor também era falso. Nas minhas fantasias, imaginava ele rindo de mim porque eu acreditava que os outros não sabiam que ele era gay. Depois comecei a achar que ele mentia tanto que não conseguia perceber que mesmo dizendo para os outros que era gay, ele mentia. Não porque não fosse gay, mas porque ainda não sabia quem era.
Melhor. Ele mentia com tanta propriedade que era justo quando mentia que falava de modo mais verdadeiro. Assim, não era quando estava com os outros que ele falava a verdade e sim quando estava comigo e mentia. Porque a verdade dele não era um conteúdo qualquer e sim o próprio ato de mentir.
Foi nessa mentira que vivemos alguns bons meses. E nisso não éramos exceção. Não chegávamos a ser uma regra, mas éramos como grande parte dos homens que gostam de homens.
De tudo, ficou tatuada na minha coxa aquela pressão. Nenhum de nossos abraços, nenhum de nossos beijos, nenhuma de nossas noites de sexo, nenhum gozo me marcou mais do que a pressão de sua mão direita sobre a minha coxa esquerda.
Às vezes acho que fui infeliz e que não é rara a minúcia indelével.
Mas isso foi há muito tempo. E nós? Pergunto-me se menti tanto assim para você. Eu que já vi você totalmente nua, assim, despreocupadamente desejando estar despida diante de mim. Mas como a vida assemelha-se a uma imagem de Escher, digo que talvez você tenha despreocupadamente realizado o que eu desejava ardentemente.
E assim vagamos. Estarmos nus, um diante do outro. Talvez isso não seja possível. Você deseja estar com Caio e eu desejo um outro homem. Talvez. Quase sempre  e sempre quase.
E assim vislumbro que o mais importante é nos desnudarmos. Jamais somos inteiramente aquilo que somos. Sempre sobra e falta.
Cai o rosto, a roupa, a máscara. Cai. Não sou mais Caio. Não sou, mas caio.
De tudo o que se passa entre nós, guardo a sua confiança. Suas palavras, seu carinho, sua beleza ficam; comigo segue apenas a sua confiança.
Venha me ver aonde eu sou o que sobra e o que falta de mim. Venha me ver aqui, um pouco ao sul, alto, perto do céu. E você vai descobrir que já me conhecia. E você vai descobrir que ainda falta muito para me descobrir.
Abraço do homem que te ama.
Pode me chamar de Alberto Tibaji.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Querida Anita

Confesso, Anita.
Sua última carta me desarrumou. Algo me dizia que você desconfiava da minha traição. Confesso.
Tenho roubado incessantemente todas as cartas que você envia para Caio. Tenho me apropriado incessantemente do nome dele. Sem que ninguém soubesse, passei a escrever para você e para outras pessoas utilizando esse nome. Sentia que você dizia coisas para me testar, para ver se eu abandonava o jogo. Mas não pretendo abandonar o jogo. Me perturba sua insistência nesse amor. Sua última carta me alegrou. Caio não merece seu amor. Quantas cartas inicialmente você escreveu e às quais ele jamais respondeu? Ele permaneceria mudo, não fosse eu. Será que você sabe quem eu sou? Creio que não. Tenho meus motivos para crer nisso. Não tenho mais como abandonar esse nome. Eu também sou Caio Marques. E nenhum de nós é mais verdadeiro que o outro. Eu te traí. Eu ainda te traio., mesmo confessando minha traição costumeira. Ou antes, você acha que eu sou um traidor. Para mim, não te contar o que fiz não significa traição, significa que aquele não era o momento para você saber quem eu realmente sou. Por que você não comentou nada quando eu confessei, por meio de Caio, como se eu fosse Caio, que já tinha também namorado homens? Não sei se fiz isso apenas para destruir a imagem idealizada que você tinha dele. A traição pressupõe um pacto anterior e a quebra desse pacto. Eu não te traí. Nosso pacto, por mais déjà vu que isso seja, faz-se em cartas. E nossas cartas são mapas que desenhamos para traçarmos nossas vidas. Não me  risque das suas cartas. Te amo assim. Por escrito. Inteiramente seu,
Caio Marques.
PS: sobre o ipê te escrevo depois.